segunda-feira, 1 de setembro de 2014

[Resenha] Gayle Forman - Se Eu Ficar

♪ Cante-me uma canção de uma jovem que se foi
Diga, poderia essa jovem ser eu? ♪
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Fugindo da massiva onda de comentários sobre A Culpa das Estrelas, procrastinei ao máximo possível sua leitura, até que a fiz pouco depois da adaptação ser lançada nos cinemas. Quando fiquei sabendo de Se Eu Ficar, imaginei que não seria diferente, o livro tem qualidades muito semelhantes àquele, inclusive um aguardado filme homônimo. Porém, ao invés de esperar pela leitura, aproveitei a parceria com a Novo Conceito e experienciei a realidade catastrófica de Gayle Forman guiado pela curiosidade - e que grata surpresa.
Hoje de manhã, saí com a minha família para um passeio de carro. E agora estou aqui, mais sozinha do que nunca.
Depois do acidente, Mia ainda consegue ouvir a música. Ela vê seu corpo ser retirado dos destroços do carro de seus pais – mas não sente nada. Tudo o que ela pode fazer é assistir ao esforço dos médicos e enfermeiras para salvar sua vida, enquanto seus amigos e parentes aguardam na sala de espera... E o seu amor luta para ficar perto dela. Pelas próximas 24 horas, Mia precisa compreender o que aconteceu antes e depois da tragédia. E no fundo, também sabe que precisa fazer a escolha mais difícil de todas.
Não estou certa de que este é o mundo ao qual pertenço. Não tenho certeza se quero acordar.
A escrita de Forman é o contraponto de leveza à temática da história. Fluida, funcionou extremamente bem com o uso sequencial dos flashbacks, com os quais podemos conhecer quem de fato é Mia e todos a sua volta. Apesar de narrar sentimentalismos inerentes ao trajeto do enredo, a autora não se perde e mesmo nesses momentos não há tédio. Ela deixa claro de modo rápido de onde quer partir - as promessas da sinopse se cumprem nas primeiras páginas - e em qual lugar deseja chegar com o que escreve, desenvolvendo exemplarmente os personagens sem perder a determinação semântica. O emocional se faz presente na medida certa, me impressionando no quanto esse livro foi bem escrito.
[...] na terceira série, me deparei com o violoncelo durante as aulas de música e ele me pareceu mais humano. Parecia que, ao tocá-lo, ele lhe contaria segredos, então não hesitei.
Dessa forma, os flashbacks são quase um personagem a ser destacado. Gayle os utilizou para basear absolutamente tudo que desejou contar sem divagar, descrever demais, tampouco esconder o verdadeiro motivo de seu uso frequente. É uma escrita sincera, que se desfruta com o vai-e-vem do passado e presente, constantemente discutindo o futuro. Creio que, à proposta de um young adult/sick-lit, a construção afetiva de, em questão de segundos, ser a última pessoa viva de sua família foi eficiente e abre portas a um interesse posterior do leitor por tragédias mais complexas.
Precisava estar em algum outro lugar onde as pessoas não estariam tristes, onde a preocupação fosse a vida, não a morte.
Mia é mais uma protagonista bem equilibrada entre os lados ficcional e humano necessários ao contexto proposto. Apesar de muitas de suas reações soarem situacionalmente coerentes, não me parece tanto alguém que o leitor possa (re)conhecer em sua rotina. Não senti conexão nesse sentido. E digo "soarem", porque vejo um julgamento de credibilidade à ela cabível apenas a alguém que sofreu nas mesmas condições. Afinal, não perdi toda minha família em acidente de carro de uma hora para outra e caí em coma, negociando com a vida - logo, como poderia analisar sua coesão detalhadamente? Em minhas limitadas habilidades como resenhista, sinto em não saber a resposta.
Tenho dezessete anos. As coisas não deveriam ter acontecido dessa forma. Não é isso que deveria ter acontecido com a minha vida.
Embora esse estado possa ser empregado em praticamente qualquer livro atual - eu não sobrevivi aos Jogos Vorazes, mas pude criticar Katniss -, há algo estranho na realidade palpável de Forman que me impede de tal: a possibilidade constante da perda de quem você ama. Ela desconstrói, pelo menos momentamente, qualquer ideia de segurança que o ledor sonhe em estar. Não posso julgar Mia inteiramente porque eu consegui me pensar em seu lugar. Assim, não encontro produtividade em detalhar suas outras características, coadjuvantes e relacionamento amoroso, visto que é a desgraça que a move e ao livro como um todo.
Então, me inscrevi, juntei cartas de recomendação e enviei uma gravação. Não contei nada disso para Adam. Disse a mim mesma que não havia o menor motivo para alardes, já que a chance de conseguir uma audição era minúscula. Mas, mesmo assim, reconheci que aquilo era uma mentira. Uma pequena parte de mim sentia que o simples fato de me inscrever fosse um tipo de traição. Juilliard era em Nova York. E Adam estava aqui.
Não obstante, alguns problemas de revisão são perceptíveis, tanto em estruturas frasais específicas, quanto uma falta de padrão na tradução de termos, como nomes de livros - uns adaptados, outros não. Espero que a pressa em lançar e promover obras no embalo de suas aparições nas telonas não implique usualmente em uma correção não-tão compromissada com a excelência. A diagramação da Novo Conceito raramente falha na qualidade, porém não vou entrar no dilema das capas. Há bastante respiração entre o texto e o fim das páginas e a tipografia auxilia a vontade de continuar o texto. 
— Só acho que os funerais são como a própria morte. Você pode ter os seus desejos e planos, mas, no final das contas, nada está sob o seu controle.
— Nada disso [...] Não se você compartilhar os seus desejos com as pessoas certas.
Através de uma leitura fluente, uma protagonista ramificada de um jeito crível e uma prosa que pede interrupções pelas tristezas sobrepostas, Se Eu Ficar se consagrou funcional, bem escrito e deliciosamente capaz de ser lido. Se antes eu me preocupava com a necessidade duvidosa de uma continuação, agora penso que é um pensamento ainda mais válido. Gosto especialmente de como terminou e não sei dizer se lerei as obras seguintes. Se Mia pode escolher entre ir e ficar, acredito que nós também tenhamos alternativas nesse aspecto. E se você optou por ficar até aqui: leia.
Quero dizer [...] que, às vezes, não temos escolha.
Título: Se Eu Ficar.
Autor: Gayle Forman.
Editora: Novo Conceito.
Número de Páginas: 224.
Tradução: Amanda Moura.

sábado, 26 de julho de 2014

Bookcast #3


Terceira edição do Bookcast! Dessa vez falamos de J.K. Rowling voltando a escrever sobre Harry Potter, o filme de "Quem é você, Alasca?", os dois teasers de "A Esperança - Parte 1" e muito mais. Não sabe o que é? Clique aqui e aqui para assistir os anteriores!

Envie sugestões de notícias e temas: bookcastfeliz@gmail.com

Links mencionados:

- Artigo da Rita Skeeter traduzido: 
http://bit.ly/traducaoartigoharrypotter 

- Links dos teasers de A Esperança - Parte 1 
Teaser 1   https://www.youtube.com/watch?v=66VBs9HMp6E
Teaser 2  https://www.youtube.com/watch?v=vy0Km7SyBQQ

- Informações sobre a Bienal de São Paulo: 
http://www.bienaldolivrosp.com.br/ 

- Informações sobre a FLIP: 
http://www.flip.org.br/ingressos2014.php

E por favor, deixe seu feedback! Também se inscreva no canal, dê um like no vídeo e obrigado por assistir. Até o próximo - e que ele seja direto do Parque Anhembi!

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Carne, osso e palavras: há como separar a vida e a obra?

Podemos separar a cultura produzida por alguém das ações que executa em sua vida particular?
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Fonte: Camilando
Essa discussão muitíssimo interessante foi reerguida pelo escritor Damien Walter em seu blog no site do The Guardian. Acabei por me encontrar entre os debates, pois há alguns dias adquiri os livros d'As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley e tamanha foi minha surpresa ao saber de seu envolvimento perturbador nesse contexto. 

Em 2014, a escritora norte-americana já falecida foi acusada de abuso sexual por sua própria filha, Moira Greyland, que afirma ter sido molestada dos 3 aos 12 anos. Greyland acrescentou dizendo que foi uma das responsáveis por acusar seu pai, Walter H. Breen, também por abuso sexual de crianças.

Marion Zimmer Bradley
"A primeira vez que ela abusou de mim, eu tinha três anos. A última vez, doze, e eu conseguia fugir. Eu pus Walter na cadeia por abusar de um menino. Tentei intervir quando tinha 13 anos contando pra minha mãe e Lisa, e elas apenas o fizeram se mudar para seu próprio apartamento. Eu vivia parcialmente em sofás por causa da saída de medicamentos controlados, orgias e o constante fluxo de pessoas entrando e saindo do nosso "lar". Nada disso deveria ser novidade. Walter era um estuprador em série com muitas, muitas, muitas vítimas (eu dei o nome de vinte e duas aos policiais), mas Marion era de longe bem pior. Ela era cruel e violenta, assim como bastante fora de si sexualmente. Não sou sua única vítima, nem todas as suas vítimas foram meninas."
- Greyland por e-mail à escritora Deirdre Saoirse (link).

Todos sabem - ou deveriam saber - que o(a) escritor(a) que lemos nas páginas não é aquele(a) que conhecemos em carne e osso. Tanto que, diversas vezes, conhecer nossos heróis culturais é uma tremenda decepção. Uma cantora em ascensão no palco pode ser a depravada gritando obscenidades no bar. O poeta que expressa beleza nos versos talvez seja um bêbado egoísta. Logo, nós frequentemente separamos o artista do ser humano, o ícone do real. Porém, quando os atos de nossos rockstars literários ultrapassam a linha do mau comportamento, entrando na indignação moral e ilegalidade, concluir essa quebra se torna muito mais complicado - quando não impossível.

O caso relembrou acusações póstumas a outros autores, tais quais as que seguiram Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas, desde que seu relacionamento com Alice Liddell - criança que inspirou suas obras - ficou sob suspeita após a publicação de uma biografia. J.M. Barrie, inventor de Peter Pan, é alvo de questionamentos há décadas acerca de suas reais intenções ao se aproximar da família Llewelyn Davies, que inspirou a criação de sua magnum opus. Bradley, aliás, possuiu vital importância à comunidade de ficção científica americana, estando por três meses dentre os bestsellers do New York Times e se consagrando uma das escritoras mais lidas no mundo todo.

E não é somente no meio literário que ficamos nesse tipo de situação. O Vaticano excomungou mais de 840 padres por alegação de abuso infantil em dez anos. Chris Brown perdeu fãs e ganhou a antipatia de inúmeros após o escândalo da violência doméstica contra Rihanna. Muitos observam que apoiá-los/lê-los afora suas posições ou atos envia uma mensagem implícita de que suas práticas são toleráveis. Ao mesmo tempo, há os que argumentam que o valor do trabalho pode ser distanciado de seu criador, logo somos capazes de reprovar o escritor sem condenar o escrito.

Eu ainda lerei As Brumas de Avalon, feito outros ledores que o farão depois de mim. Brown continuará com sua base de fãs e ouvintes cantarolando suas músicas. Católicos permanecerão indo às missas. O debate vai prosseguir e a dúvida de qual argumento abraçar, também.

"The rain it raineth every day" - Leonard C. Taylor
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Esse artigo é uma adaptação e tradução livre do texto de Damien Walter para o website do jornal The Guardian (link). Seu teor no presente blog é puramente reflexivo e não reproduz julgamentos de valor. 

sábado, 5 de julho de 2014

Bookcast #2


Segunda edição do vlog que eu, Gabi, Nanda e Gabriel confabulamos. Dessa vez, comentamos a vinda de Cassandra Clare ao Rio, a possibilidade de você se tornar um personagem n'As Crônicas de Gelo e Fogo, o universo expandido de Star Wars e muito mais!

Envie sugestões de notícias e temas: bookcastfeliz@gmail.com

Links mencionados:

- Mais informações da vinda da Cassandra Clare ao RJ: 
https://www.facebook.com/events/456626294482441/

- Vire personagem na série As Crônicas de Gelo e Fogo:
http://www.prizeo.com/prizes/georgerrmartin/a-wolf-sanctuary-tour-and-helicopter-ride

- Mais informações do parque de Harry Potter: 
https://www.universalorlando.com/Home.aspx

Não se esqueça de deixar seu feedback, se inscrever no canal, clicar em Gostei no Youtube caso tenha curtido - se não, basta indicar aos inimigos - e obrigado pela companhia e paciência. Até a próxima - e que ela seja antes do que você imagina!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

[Resenha] Irmãos Grimm - Once Upon A Time: Uma Antologia de Contos de Fada

"O paraíso é um conto de fadas para pessoas com medo do escuro."
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                                                                                                                                                                                       Stephen Hawking

Os mais assíduos no blog talvez já tenham reparado o selo em forma de maçã na coluna à direita. Ela se refere a um fã-clube/grupo no Facebook que criei para fãs da série Once Upon A Time, a qual acompanho. Em abril desse ano, fizemos o primeiro evento do seriado em terras brasileiras, com o apoio da Disney Brasil, da Livraria Travessa e também da Editora Planeta, que publica os livros oriundos da série por aqui. Ao enviar alguns livros para sorteio no encontro, aproveitei para solicitar um exemplar a fim de resenhá-lo e trazer de volta à minha rotina a atemporalidade dos contos de fadas originais dos Grimm.

Antigamente, quando os desejos ainda se cumpriam, havia um rei cujas filhas eram todas formosas.

Era uma vez. Três palavrinhas que, depois que demais de dois séculos, ainda conseguem transportar os leitores para cenários de mistérios, intrigas, traição, vida e morte, amor e abandono. Em seu esforço para preservar a cultura popular, sem querer os Irmãos Grimm criaram um marco atemporal e eterno da literatura ocidental. Com este livro de contos de fadas ilustrado você poderá reencontrar as histórias e os personagens que aprendeu a amar.
- Meu amor por ela é tão grande que, se todas as folhas das árvores fossem línguas, não seriam capazes de expressá-lo!
Seria bastante impreciso avaliar em termos de escrita e narratividade uma obra que está longe de ser considerada uma tradução das fábulas originais, histórias essas que além de possuírem inúmeras versões, projetam-se em controvérsias sobre de onde, de fato, vieram. Origens à parte, o estilo empregado é ótimo; uma leitura tranquila, rápida e simples como os contos de fadas sempre nos pareceram, com bem mais floreios nos enredos do que no texto em si. Erros de revisão crassos e problemas de coesão textual - especificamente em referências e reiterações lexicais -  aparecem logo no início do livro e não reparei em outros dali em diante, porém me decepcionou um pouco. Um belo trabalho estética e materialmente falando deve coincidir com a qualidade do conteúdo.
- Caçador [...], em que está mirando?
- A três quilômetros daqui [...] há uma mosca no galho de um carvalho. Pretendo acertar uma bala no olho esquerdo dela.
Entre rever personagens que sempre ouvimos falar e outros quase desconhecidos do imaginário popular, ter acesso a essas fábulas tão cruas, autênticas, livres da maior parte de acréscimos de terceiros é de alegrar qualquer leitor. Exatamente devido à transparência que têm, certas histórias podem trazer surpresas pelo teor mais visceral do que estamos acostumados, com direito a mutilações, decapitação, matricídio e crueldades tão contemporâneas quanto os noticiários das cidades. Mas acredite, isso só aumenta a diversão das curtas narrativas e em nada atrapalha ou se deixa atrapalhar por quaisquer visões que tenhamos de suas adaptações mais aprazíveis.
[...] E sua raiva era tanta que ele bateu com o pé direito no chão com tal força que a perna afundou até o joelho. Então ele agarrou o pé esquerdo com as duas mãos e, furioso, puxou-o até se rasgar ao meio. E esse foi seu fim.
As mensagens por detrás dos contos trazem as morais que, teoricamente, deveriam formar as crianças desde a infância, porém algumas têm um valor intimidador maior que didático. Por isso, recomendo uma leitura prévia antes de pôr seus filhos para dormir ao som dos Grimm. Apesar de inoxidáveis, as narrativas produzem um caráter educacional menos eficaz que várias alternativas feitas especificamente para isso hoje em dia. Os tempos são outros, as importâncias mudaram, mas o entretenimento, no mínimo, continua o mesmo.
- Se não fizer o que peço - o lobo ameaçou -, eu vou comer você.
Com medo, o moleiro obedeceu. Isso mostra de que são feitos os homens.
A edição da Planeta em capa dura revigora a nostalgia dos grandes clássicos que embalaram tantas infâncias, além de destacar o design incrível do volume. Com páginas resistentes, tipografia agradável, espaçamento duplo - embora haja desvios em prol da adequação de parágrafos por certas vezes - e ilustrações pontuadas nos momentos certos, é daqueles que fica bem na estante de qualquer maneira, principalmente lido. Aposto também que um número superior de gravuras não iria ser um problema para ninguém.
Henrique sofreu tanto quando seu mestre foi transformado em sapo que teve de colocar três bandagens de ferro no coração, para impedi-lo de explodir de angústia.
Um livro que sobeja a necessidade dos fãs de Once Upon A Time ou dos contos de fada, pois agrega valor na importância de não se deixar esquecer. As fábulas podem estar em baixa, os finais totalmente felizes não são tão escritos atualmente, contudo as lições que vários dos textos ressaltam são imprescindíveis para a formação de um ser humano. Ele(a) não precisa crer em lobos transgêneros, espelhos terapêuticos, príncipes imaculados, tampouco na indefensabilidade feminina; basta que sua imaginação, vez ou outra, se lembre do velho Era Uma Vez - esquecimento por maçã envenenada não é desculpa.
Estou lhe contando isso porque é uma pena que você não estivesse lá.
Título: Once Upon A Time: Uma Antologia de Contos de Fada.
Autor: Irmãos Grimm.
Editora: Planeta (parceria).
Número de Páginas: 272.
Tradução: Elisa Campos.
Ilustração: Kevin Tong.