domingo, fevereiro 22, 2015

Minha torcida no Oscar 2015


22|02|15 · Nada de previsões, críticas ou qualquer coisa do tipo, listo apenas um apanhado dos meus pitacos e torcidas à premiação desse ano. 

MELHOR FILME

Por mim, O Grande Hotel Budapeste ganharia disparado. O filme tem uma narrativa toda própria, exótica e divertida, além de ótimas atuações e um visual de encher os olhos. É do tipo de longa que você termina já querendo reassistir. Outro merecedor de estatueta é Whiplash, que apesar da proposta trivial, tem uma linha clara de mensagem, brinca com as tensões e goza de uma abordagem musical linda de acompanhar.


Birdman é um tanto fora da caixinha – não de um jeito elogiável – e esbarra na superestima de Boyhood, cujo trabalho interessantíssimo resultou em um produto pouco além do apático. A Teoria de Tudo e O Jogo da Imitação é outra dupla que se equipara nas qualidades e defeitos, pouco se sustentando na mente do espectador após os créditos.

▐ MELHOR DIRETOR



Seguindo minha opinião anterior, Wes Anderson ganhou todos os meus dedos cruzados. Sua linguagem está bem estampada em Budapeste, na obsessão pelas simetrias, o humor excêntrico e as boas escolhas do roteiro. Pelo comprometimento da ideia, creio que o Linklater também seria um vencedor à altura.

▐ MELHOR ATOR



Surpreenderam-me por não indicarem Ralph Fiennes pelo belíssimo serviço em Budapeste, tampouco Gyllenhaal pelo inquietante O Abutre. Se fosse o caso, minhas fichas seriam deles. Mesmo com minhas ressalvas nos problemas de escalação envolvendo deficiências, Eddie Redmayne é a melhor das escolhas dentro da lista. Gosto bastante do Benedict, mas seu papel me lembrava constantemente de Sherlock e permaneci me perguntando quando John Watson iria surgir com um caso novo.

▐ MELHOR ATOR COADJUVANTE



J.K. Simmons merece tudo e ainda mais nessa categoria. Sua figura conturbada, insana e odiável em Whiplash precisa urgentemente de destaque, tão qual Miles Teller como protagonista. Menção honrosa para Ethan Hawke que, ao lado de Patricia Arquette, carregou Boyhood nas costas. Eles foram minha parte favorita do filme.

▐ MELHOR ATRIZ



Julianne Moore, favorita ou não, emocionou com Para Sempre Alice. O deterioramento gradual pelo Alzheimer é tão puro e dolorido em sua interpretação no longa que, além de ensinar, pesa bastante  no emocional de quem vê.

▐ MELHOR ATRIZ COADJUVANTE



Como disse, Patricia marca meu favoritismo. Em Boyhood, chega a ser divertido vê-la tão vulnerável e confusa em certos trechos e, ainda assim, ofuscar o restante do elenco. A indicação de Emma Stone – acho-a incrível, mas convenhamos – é um equívoco por seu papel complacente em Birdman. Ignorarem o esforço de Jennifer Aniston em Cake como Melhor Atriz e colocar Stone aqui esperneia uma contradição absurda.

▐ MELHOR ROTEIRO ORIGINAL



Mais uma vez, Wes Anderson e Hugo Guinness poderiam angariar o Oscar pelo entranhado e pitoresco enredo de Budapeste, que não se isenta da coesão e de tocar quem assiste. Citação especial para Dan Gilroy com O Abutre, outro esnobado pela Academia com sua proposta difícil e instigante.

▐ MELHOR FOTOGRAFIA / FIGURINO / MAQUIAGEM E CABELO /  DESIGN DE PRODUÇÃO



Começo a pensar se não seria melhor dizer que O Grande Hotel Budapeste poderia ganhar todas as opções e terminar o post. Sua fotografia é um exercício de concentração através das molduras naturais, abusando das cores de um jeito confortável aos olhos e abrindo margem à criatividade dos profissionais envolvidos. Os figurinos se conectam às personalidades do elenco e agregam à dinâmica da montagem final. O resultado é uma obra de arte de frames deliciosamente sequenciados.

▐ MELHORES EFEITOS VISUAIS



Interestelar, sem dúvidas. Toda a preocupação de Nolan em evitar o CGI e optar por estratégias de filmagens e os efeitos práticos possíveis em uma longa dessa magnitude de concepção merece seu devido reconhecimento. 


quarta-feira, fevereiro 18, 2015

O momento em que decidi ser escritor

18|02|15 · Escrever é uma terapia para muita gente. Talvez a psicanálise explique o porquê de tantos de nós se sentirem mais aptos a traduzir em palavras aquilo que sentem — não necessariamente meu caso. Ainda assim, me veio uma forte imprescindibilidade de redigir este texto sem muita cabeça e bem Curupira dos pés.

São tempos difíceis, não há como negar. O curioso é que, sempre que me sinto dessa forma, surge uma espécie de inspiração disforme, aleatória. Não preciso escrever somente o que estou pensando no momento e falho em expressar, tampouco dar continuidade aos meus pseudoromances. A imposição é muito mais pela escrita banal, pelo ato que lhe corresponde.

É engraçado pensar nisso, no sofrimento como um tipo de arte. Uma professora um dia me disse que grandes autores clássicos brasileiros eram pessoas de vidas angustiadas, aflitas. Ela chegou a mencionar que, talvez por isso, suas obras se imortalizassem com sentimentos e emoções que perduram o reconhecer das gerações.



Aquela era a estreia da dúvida se eu desejava, de fato, ser escritor. Os pesares da vida, injustos ou não, me levaram a pensar o real significado daquela pergunta. Com os pés para trás ou na frente, minhas pernas conheciam bem a direita melancólica e a esquerda da angústia. Percebi, com um susto, que nunca havia me autocaracterizado como alguém feliz. Também é engraçado pensar nisso.

Minha alma não era obrigada à dolência para ser um autor, mas ela era, é assim. Um livro como poucos que não se reescreve, apenas se acrescenta. Todo o questionamento me provou que sim, a aspiração da minha vida seria a escrita, publicar livros, desenhar tramas, personagens e, acima de tudo, ser um contador de histórias. Dolorosamente biográficas ou não, minhas histórias. 

Compreendo que, provavelmente, nunca abraçarei o sofrimento como gatilho inspirador, nem saudável isso parece. Em contrapartida, não entendo por total como estou mais propício a escrever quando busco um isolamento tão latente. É querer ser ouvido e a voz não sair, querer ser atendido e não ser visto, registrando em linhas tortas o que aspira que todo mundo e ninguém leia.

Agradeço àquela professora pela catarse que sua aula provocou no então atribulado menino de Ginásio. Conforme desandei a digitar tais parágrafos — curtos e inexatos demais, desculpe por isso —, discorro pelos arquivos, livros incompletos e o calor presente quando falo desse objetivo de vida que é ser escritor. A questão foi o instante em que soube, ao menos em parte, quem eu realmente era e o que almejava me tornar. Questionáveis como arte, dor e sofrimento se escrevem.

Sonhos também.



sexta-feira, fevereiro 13, 2015

3 séries para maratonar no Carnaval



13|02|15 · Nada melhor que aproveitar os dias livres para assistir séries curtas e bem produzidas, como Fargo, Olive Kitteridge e The Knick. Com propostas bastante distintas, elas reúnem o elogio pela crítica, a aclamação dos prêmios e o apreço da audiência.

Fargo



Em janeiro de 2006, Lorne Malvo (Billy Bob Thornton) chega à pequena Bemidji, uma cidade do estado do Minnesota e, com sua malícia e violência, começa a influenciar a população, inclusive o vendedor Lester Nygaard (Martin Freeman). Enquanto isso, os policiais Molly e Gus se unem para solucionar uma série de crimes que acreditam estarem ligados a Malvo e Nygaard. Com uma trama instigante e um desenvolvimento exótico, Fargo vicia já no piloto. O equilíbrio entre as ações suspeitas de Lorne, a investigação e o reflexo de tudo na cidadezinha interiorana é genial e delicioso de ver.

A fotografia asséptica da tundra ártica faz frente às tramas engalfinhadas e personagens complexos, pelos quais nos conectamos em um véu de formas. É um roteiro denso que, contra à maré, luta sem glamour, apostando no terror silencioso que um psicopata influi em uma população cheia de vazios. A produção do FX é baseada em um filme homônimo de 96 e angariou o Emmy e o Globo de Ouro como Melhor Minissérie



Episódios — 10
Duração — 60min
2ª temporada — final de 2015
Gêneros — humor negro, suspense, neo-noir, drama criminal, gótico sulista

Olive Kitteridge


Baseada no romance homônimo vencedor do Pulitzer, a minissérie se passa ao longo de 25 anos na vida da professora de matemática Olive (Frances McDormand) e suas relações com o marido Henry, um bondoso farmacêutico; o filho Christopher, que não aprova suas atitudes como mãe e outros integrantes da comunidade. Apesar dos problemas labirínticos de sua vida simplória, Olive segue com sua frieza e severidade intactas, escondendo, no fundo, um perturbado coração. O quarteto de capítulos envolve rapidamente por sua incursão melancólica e seu denso clima dramático.

O trabalho da HBO nada deixa a desejar, desde o elenco exemplarmente selecionado até os detalhes de locação e trilha sonora que se encaixam como luvas na mão do enredo. Frances incorpora com maestria sem igual a figura amargamente cômica de Kitteridge, atuando com os olhares e fazendo o papel de sua carreira. A trama despretensiosa reforça que nossos cotidianos não possuem grandes reviravoltas, plots ou clímax, mas que, ainda assim, são mais entranhados e observáveis que quaisquer tipos de ficção. Uma história sobre família, casamento, tempo, depressão, vida e, principalmente, nós mesmos.



Episódios — 4
Duração — 60min
Gênero — drama

▐ The Knick


O seriado do Cinemax acompanha a vida dos funcionários do Hospital Knickerbocker na década de 1900 em Nova Iorque. Enfrentando as barreiras morais do momento, a equipe médica liderada pelo Dr. John W. Thackery (Clive Owen) explora novas técnicas com o objetivo de ampliar os horizontes da medicina. A direção dos episódios explicita sua qualidade cinematográfica, instigando o espectador a construir a visão histórica, social e questionadora da época. Apesar de investir nos relacionamentos internos como outros programas hospitalares da TV, eles se sobressaem ao retratarem a realidade crua e politicamente incorreta daquele período essencial da saúde.

Os planos fechados, de iluminação precária, reforçam a falta de recursos de que padeciam, dando maior credibilidade ao contexto. Com temáticas ainda contemporâneas, do racismo, patriarcado às drogas medicinais e o pouco caso com o bem-estar das classes menos favorecidas, a série sequencia comparações pertinentes entre o ontem e o hoje. Não há como negar que, além do embasamento fatídico, o choque com determinados procedimentos também faça parte do seu charme. 



Episódios – 10
Duração – 60min
2ª temporada – 2º semestre de 2015
Gêneros – drama médico, histórico

terça-feira, fevereiro 10, 2015

A história cronológica de Severo Snape



10|02|15 · O canal do Youtube kcawesome13 condensou cronologicamente as cenas mais importantes do personagem de Alan Rickman durante os 8 filmes da franquia Harry Potter em um único vídeo. O resultado é um retrato conciso e fiel de uma das figuras mais incompreendidas e complexas de Rowling. O achado é do Buzzfeed.

sábado, fevereiro 07, 2015

[SÉRIE] Transparent

Um grato lembrete de que até nos defeitos podemos ser melhores.


07|02|15 · Esqueça as documentices que já viu sobre transsexualidade, em Transparent a ficção tem vez, tocando e conscientizando talvez até mais do que a vida real. Na minha eterna busca por novos pilotos de séries, me deparei com esse compilado produzido pela Amazon – sim, a mesma dos livros – de apenas 10 episódios, cada um com menos de 30 minutos. Ainda com o curto espaço de tempo, o plot é sério e a querela é duradoura. Afinal, qual nosso limite às mudanças que estão além do próprio controle?

▐ A série


A história se passa com uma família de Los Angeles e suas respectivas vidas a partir da descoberta de que Mort Pfefferman (Jeffrey Tambor), pai de três filhos já adultos, é transsexual. O que poderia ser um projeto desandado de inconscientes coletivos sai do armário como um retrato contemporâneo da interação familiar e tudo que isso agrega. Não sem motivo que é a primeira produção da Amazon Studios a ser reconhecida em uma grande premiação. Foi um par de Globos de Ouro: Melhor Série de TV - Comédia ou Musical e Melhor Ator em uma Série de TV - Comédia ou Musical.

▐ Mort/Maura


Apesar de permear as vidas amorosas dos filhos, Ali, Sarah e Josh, Jeffrey está sob os holofotes. A naturalidade de sua atuação extirpa quaisquer dúvidas sobre a seriedade com que encarnou o papel desde a primeira vez que o vimos como Maura. Se Transparent se equilibra constantemente entre durabilidade e peso, drama e comédia, cru e fantasia, Mort é a síntese do pilar que lhe permite acontecer. É uma protagonista de nuances e simplicidades, que intui uma autoaceitação e um conhecimento íntimo tão catárticos dentro da construção dos episódios que não pude deixar de querer lhe dar um abraço.

▐ Pfeffermans e cia.


Com exceção de Tambor, o elenco é quase uma produção independente de tantos rostos pouco conhecidos, mas com uma imensa química entre si. Extremamente diferentes, a interação da família é crível e o roteiro coeso auxilia nisso. Algumas tramas podem parecer destoantes, quem sabe até desnecessárias, contudo são essenciais para se entender as mensagens que Transparent talvez queira passar. Os filhos de Maura reagem de formas distintas à sua transformação, mas se inserem em dilemas de relacionamentos que circundam pseudoestruturas morais intercaladas. Fingir lidar, ignorar, nada disso adianta ao final; a única via profícua é o velho “senta que vamos conversar”.

▐ Sem filtros


A fotografia da série me recordou o retrô-futurista de Spike Jonze e gravações amadoras de VHS, alavancando seu aspecto livre de firulas e nostálgico. O roteiro bem humorado de Jill Solloway escancara as veias dos Pfeffermans tal qual em um reality show; a distância entre espectador e obra quase desaparece no imaginário. Destaco uma cena que explicita esse derrubar da quarta parede, quando Maura confessa a um grupo de apoio como seus filhos são egoístas. Não preconceituosos, intolerantes ou qualquer infortúnio do tipo. Um grato lembrete de que até nos defeitos podemos ser melhores. Transparent desenvolve a questão dos gêneros ultrapassando a transsexualidade e chegando às vias de fato: humanizar. Assista e dê uma chance a si mesmo(a).