quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Bookcast #4: As capas são incríveis, mas as histórias nem tanto


Bookcast novo, com formato novo, mas os blogueiros de sempre!
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E você, quais livros leu que as capas são um show à parte, mas o conteúdo decepcionou?
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sábado, 29 de novembro de 2014

Panem X Ferguson: o uso de símbolos da cultura pop nos protestos urbanos

"Se nós queimarmos, você queimará conosco."




Do brasão em forma de tordo às rosas brancas, a principal temática de A Esperança - Parte 1 foi a importância dos símbolos. Katniss incorpora o papel do "Tordo", uma força poderosa contra a tirania da Capital e do Presidente Snow. O ditador até mesmo menciona a necessidade de destruir os símbolos, por darem significados e poder àquilo que representam.

Vemos hoje em dia a adoção de símbolos da cultura pop em ocasiões tumultuosas. Em 24 de novembro, uma decisão judicial não indiciou Darren Wilson, cujo disparo matou Michael Brown em 9 de agosto, um jovem negro desarmado. Uma frase familiar a todos nós surgiu, então, pintada (foto acima) na arcada da Igreja de São Luís, na cidade de Ferguson — onde todo o incidente aconteceu.

Katniss grita o slogan para Snow e os espectadores da Capital no terceiro filme, uma ameaça e declaração de força. Os manifestantes de Ferguson desejavam, supostamente, divulgar a ferida aberta na comunidade e da chama acesa por lá. Dependendo da interpretação, a frase pode ser lida tal qual uma ameaça, em que violência será combatida com violência (a família Brown pediu que ninguém se envolvesse nisso), ou uma idealização de coletividade. "Nós queimarmos" claramente indica que os protestos e a dor não se restringe ao caso de Michael, mas de toda a comunidade.

Usuários do Tumblr têm usado o site para criar paralelos entre os filmes da franquia e as manifestações em Ferguson - alguns equiparando a situação da cidade no Missouri à nação fictícia de Panem. Olhar para as imagens criadas nessas semelhanças, no que diz respeito aos motins dos distritos no cinema, são difíceis de ignorar.


A simbologia dos Jogos Vorazes trilhou seu próprio caminho até outros movimentos políticos. Na Tailândia, hoje sob um hostil governo militar, forças anti-ditatoriais — em específico a Liga Liberal dos Estudantes da Universidade Thammasat pela Democracia — adotaram a saudação de três dedos do Tordo como um símbolo do movimento. Os militares entendem a ameaça do ato tão seriamente que prenderam oito estudantes fazendo a saudação e adiaram as exibições do longa mais recente.

Símbolos em filmes e livros são fenômenos um tanto hodiernos. Em 2008, o grupo hacker Anonymous elegeu a máscara de Guy Fawkes à sua imagem oficial. A arte foi popularizada pelos quadrinhos convertidos no filme V de Vingança. Contudo, a apropriação de tais ícones e linguagens como um todo não são exatamente uma novidade. Antes de tudo, as histórias e mitologias bíblicas os adotavam para se comunicar e unificar alianças - pense em Davi e Golias.

O ditado "a vida que imita arte, que imita a vida" nos vem à mente. O lançamento assustadoramente cronometrado de A Esperança - Parte 1 proporciona uma rara oportunidade de reflexão. Símbolos da cultura pop fornecem uma linguagem em comum às pessoas, para que se expressem e sejam facilmente adaptadas em prol de sua causa. Independentemente de influenciar no espectro político, tampouco nas questões acima, símbolos importam.



O presente texto é uma tradução livre da postagem ‘If we burn, you burn with us': When symbols move from the screen to the streets, de Mike McCormack ao site Hypable. Todas as informações expostas são de responsabilidade do conteúdo original. As fontes usadas por Mike foram o Tumblr (link e link), The Daily Mail e Business Week. Caso queira reproduzir, credite nossa adaptação.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Quão livre sua fala é?

"Os índios shuar, chamados de jíbaros, cortam a cabeça do vencido. Cortam e reduzem, até que caiba, encolhida, na mão do vencedor, para que o vencido não ressuscite. Mas o vencido não está totalmente vencido até que fechem a sua boca. Por isso os índios costuram seus lábios com uma fibra que não apodrece jamais."

"A Girl Writing", por Henriette Browne.
Quantas vezes já ouvimos que "a palavra tem poder"? Em "O Livro dos Abraços", Eduardo Galeano cita tal episódio indígena e nos recorda da cultura que propagamos ao considerar a força da fala. Trazendo à nossa realidade, nós, blogueiros literários, gozamos de um alcance incomensurável quando se trata da escrita. Nossas vozes, derramadas em postagens, resenhas e afins, declamam angulações, opiniões, mas não totalmente livres de rédeas convencionais. Afinal de contas, quão livres nossas falas são?

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Sobre gritos, Paulo Guerra e resenhar poemas

Fonte
Surpresa. Essa é a palavra que resume o que senti quando o autor Paulo Guerra me propôs uma leitura crítica de seu livro de poemas, "Grito". Além de não ter o costume de ler tal gênero, nunca me passou pela cabeça sequer resenhá-lo de alguma forma. Se a prosa já tem, dentre tantas dificuldades, a questão do que é subjetivo, o que dizer de um poema, um texto que antes mesmo de ter palavras, possui sentimentos? Só pude pensar que the struggle is real.
É muito simples / senhoras & senhores: / Quando olho para fora / perco-me de vista / Quando dirijo meu olhar / para dentro / encontro mil flores multicoloridas / Perfumadas [...]
Porém, por inúmeros motivos e casualidades, aceitei a proposta e recebi um exemplar do livro. Então o abri e constatei o que já imaginava: nunca poderia resenhá-lo. Ainda assim, em um texto para além dessas métricas, me sinto confortável e, principalmente, apto para falar da obra.
Tudo o que é concebido / Para aumentar a percepção humana / Deve ser considerado / Poesia / Tudo que é concebido / Através das expressões artísticas / Deve ser considerado / Místico [...]
Logo, tenho o compromisso de expor que, nesse meu amadorismo da categoria textual, não alcancei os significados da maioria dos escritos. Eles não conversavam comigo, não representavam algo que eu pudesse juntar, o que talvez seja devido à minha perspectiva metódica de resenhista literário. Poemas, ao contrário dos livros comuns do mercado, são desprendidos de paradigmas e podem se verter para tantas possibilidades de entendimento que nem todo mundo pode compreender. Saber o que o(a) poeta quis dizer ao escrevê-lo? Jamais, ora essa - quem sabe essa seja a graça da coisa toda. O poema me parece um mistério a ser desvendado, não em descrições de algum aventureiro em uma caverna secreta ou uma conspiração a ser desmantelada. Paulo Guerra fez isso bem em seu "Grito".

[...] Acusam-nos de loucos! / & sabemos que o somos / porque amamos em demasia.
Em alguns momentos, entretanto, os poemas me passaram uma verdade, uma mensagem que pude discernir de determinado modo - destaco entre os parágrafos trechos deles. Eles, especificamente, me deram a sensação de que tenho quando leio um poema inédito: a noção de estar bisbilhotando a intimidade de alguém. São textos, no geral, que exprimem uma intimidade tão gritante e, ao mesmo tempo, tão sutil, que é como se eu lesse o diário de alguém. Pode ser uma coisa só minha, contudo é algo que o "Grito" me fez suscitar e do qual não me arrependo.
[...] Eis o privilégio do Poeta / Criar / para si memo / através da vontade livre / o que silêncio que fala [...]
A diagramação é belíssima, apesar das páginas brancas - embora compreensível pelo número de páginas -, e a capa já me chamava a atenção pelo computador. A tipografia está apropriada, tal qual a ornamentação coerente do volume. Sugiro uma leitura não apenas aos apreciadores do gênero, mas aos leitores que gostam de um bom desafio: eu aceitei o do Paulo, falta você aceitar o meu. Qualquer dúvida, grite.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

[Resenha] Jeff VanderMeer - Aniquilação

"A imperfeição é bela, a loucura é genial e é melhor ser absolutamente ridículo que absolutamente chato."

                                                                                                                                                                                        Marilyn Monroe

Reconhece aquele sentimento de que investiu, tentou, voltou a tentar e não chegou a lugar algum? É assim que me sinto com relação a Aniquilação, obra cedida pela parceria com a Intrínseca que tinha todas as chances ao seu favor. Todavia, através de uma trama imobilizada, personagens inexpressivos e uma escrita inflexível, a tarefa de concluí-lo não foi nada menos que árdua. 

Um grupo de quatro mulheres são enviadas para a Área X, um lugar incompreensível e isolado do restante do mundo há décadas, onde a natureza tomou para si os últimos vestígios da presença humana. Elas fazem parte da décima segunda expedição ao local, cujos objetivos são explorar o terreno desconhecido, tomar nota de todas as mudanças ambientais, monitorar as relações entre elas próprias e, acima de tudo, não se contaminarem. Uma missão mortal, visto que todas as expedições anteriores tiveram resultados assustadores, como suicídios em massa, tiroteios descontrolados e casos de mudança de personalidade súbita seguidos de morte por câncer. As mulheres partiram para a Área X esperando o inesperado…
E foi exatamente isso que encontram.

O estilo teso de VanderMeer, infelizmente, não cativa. A leitura prossegue rígida, presa em suas próprias conjecturas, impedindo um aproveitamento maior do entretenimento em si. Não procuro livros fáceis de serem lidos, mas algo muito específico não se conectou comigo enquanto leitor, tampouco como resenhista. Temo não ter tanto o que analisar dessa experiência que adiei o quanto pude e, quando realizei, corri para terminar o mais depressa possível. 

A protagonista - que conhecemos apenas tal qual "bióloga" - se faz tão rija quanto a realidade que a envolve e pouco agrega a quaisquer pareceres gerais que eu viria a ter. Excetuando ínfimos detalhes, poderia se caracterizar uma coadjuvante por sua postura baldada e enfadonha. O enredo promissor não faz jus ao que a história, de fato, entrega ao leitor, com o lento desenvolvimento maçante que me levou a procrastinar tanto o fim da leitura.

Muito provavelmente, o único fator merecedor de um salvo-conduto é a diagramação impecável, o trabalho interno é bem impressionante considerando o pequeno número de páginas. Ainda assim, torcer por um livro não garante sua qualidade e Aniquilação desvizinhou-se dos adjetivos positivos que sempre tenho prazer em oferecer nas ocasiões cabidas. Sorte aos que arriscarem lê-lo.

Título: Aniquilação (Comando Sul #1).
Autor: Jeff VanderMeer.
Editora: Intrínseca.
Número de Páginas: 200.
Tradução: Bráulio Tavares.