terça-feira, março 24, 2015

S


Ah, se você soubesse
Se coragem eu tivesse
E meu coração desse
Caso ele te interesse
Talvez tudo eu pudesse

Ah, se possível fosse
Abandonava esse agridoce
Não falava mais baroce
E cantava minha verdade
que você precisa ouvir.

Ah, ser vara-verde com você
É ficar mal sem ver por que
Sinto nem sei o quê
Ou sei e não vou dizer
Ou digo sem você ver.

Ah, que chegue aos seus olhos
Tudo que não professei
Aquilo no mar joguei
Que você não pescou
E eu afoguei.

E eu afoguei.



Poema "S", de minha própria autoria (Caíque Pereira), 24/03/2015 no Rio de Janeiro.

quinta-feira, março 12, 2015

Previously On My Playlist #1



12|03|15 · Decidi criar essa coluna para compartilhar um pouco do que ouço e, principalmente, descubro no meu gosto musical hoje em dia.

BAD REPUTATION - KELLY CLARKSON



Não gostei em geral do álbum mais recente da cantora, Piece By Piece, mas se tem algo que me conquistou lá na edição deluxe é Bad Reputation. Ela é descolada de um jeito nostálgico, indo mais para o R&B dos anos 90. Além de tudo, brinca na letra com a vontade de se mostrar forte e intangível, escondendo o medo de ter descoberta sua identidade frágil e sensível por aquele alguém que sabe exatamente como fazer isso; um jogo interno na escolha de se vulnerabilizar ou não.

▐ BREAK FREE (cover) - POSTMODERN JUKEBOX



Um achado incrível que merecia até um post próprio. Em meu vício por covers do Youtube, acabei me deparando por acaso com esse projeto musical de versões do pop atual na roupagem de hits antigos, com direito até a banda ao vivo. Minha escolha por sua Break Free, originalmente interpretada por Ariana Grande, foi repaginada no vintage da década de 70, marcada pelos metais de sopro, sobejando-se de vocais poderosos com musicalidade e ritmo únicos. Pura paixão aos ouvidos.

▐ PUPPETEER - MAX



Mais um canal descoberto graças a covers, porém com um projeto mais autoral e conectado ao cenário. Puppeteer é viciante e destaca aparentes tendências, desde o estilo luz & sombra do clipe, tal qual sua canção equilibrando o sexy moroso e o extremamente dançante. MAX é performático e, mesmo não tão conhecido, faz trabalho de profissional e merece reconhecimento. Você também vai se deparar cantarolando "my little puppeteer" e tentando os agudos impossível do cantor. Já espero ouvi-la na trilha sonora de alguma série por aí.

▐ I CAN'T LET GO - JENNIFER HUDSON



Jennifer a interpretou no último Oscar e como me culpei por não conhecê-la antes! Original da extinta série Smash, a qual assisti alguns episódios, I Can't Let Go é daquelas baladas clássicas, atemporais e intensas. A letra se esquiva dentro da batalha de um alguém que cogita aceitar ou não se entregar para seu amor outra vez, graças à más experiências e uma aptidão própria em repetir erros. A vencedora da Academia, como sempre, explode com sua voz de pôr estádios abaixo e deixa tudo ainda mais comovente.

▐ MUG SHOT - MAX


Com um ar mais artístico e encenado do que o single recorrente, Mug Shot constrói bem uma animação quase natural e não se preocupa em levar tão a sério a parte teatral. Divertida, a produção conta com takes incríveis por parte da fotografia aberta. O cantor se contém nos relances, porém volta a acertar em outro fácil chiclete sonoro. Lembrou-me um pouco as propostas de Bruno Mars, todavia com uma assinatura maior de eletrônica e despretensão.



Espero que tenham gostado, pretendo voltar a reunir uma quantidade razoável de canções recém-descobertas para comentarmos. E quais são as suas últimas obsessões sonoras? Deixe nos comentários e até breve!


domingo, fevereiro 22, 2015

Minha torcida no Oscar 2015


22|02|15 · Nada de previsões, críticas ou qualquer coisa do tipo, listo apenas um apanhado dos meus pitacos e torcidas à premiação desse ano. 

MELHOR FILME

Por mim, O Grande Hotel Budapeste ganharia disparado. O filme tem uma narrativa toda própria, exótica e divertida, além de ótimas atuações e um visual de encher os olhos. É do tipo de longa que você termina já querendo reassistir. Outro merecedor de estatueta é Whiplash, que apesar da proposta trivial, tem uma linha clara de mensagem, brinca com as tensões e goza de uma abordagem musical linda de acompanhar.


Birdman é um tanto fora da caixinha – não de um jeito elogiável – e esbarra na superestima de Boyhood, cujo trabalho interessantíssimo resultou em um produto pouco além do apático. A Teoria de Tudo e O Jogo da Imitação é outra dupla que se equipara nas qualidades e defeitos, pouco se sustentando na mente do espectador após os créditos.

▐ MELHOR DIRETOR



Seguindo minha opinião anterior, Wes Anderson ganhou todos os meus dedos cruzados. Sua linguagem está bem estampada em Budapeste, na obsessão pelas simetrias, o humor excêntrico e as boas escolhas do roteiro. Pelo comprometimento da ideia, creio que o Linklater também seria um vencedor à altura.

▐ MELHOR ATOR



Surpreenderam-me por não indicarem Ralph Fiennes pelo belíssimo serviço em Budapeste, tampouco Gyllenhaal pelo inquietante O Abutre. Se fosse o caso, minhas fichas seriam deles. Mesmo com minhas ressalvas nos problemas de escalação envolvendo deficiências, Eddie Redmayne é a melhor das escolhas dentro da lista. Gosto bastante do Benedict, mas seu papel me lembrava constantemente de Sherlock e permaneci me perguntando quando John Watson iria surgir com um caso novo.

▐ MELHOR ATOR COADJUVANTE



J.K. Simmons merece tudo e ainda mais nessa categoria. Sua figura conturbada, insana e odiável em Whiplash precisa urgentemente de destaque, tão qual Miles Teller como protagonista. Menção honrosa para Ethan Hawke que, ao lado de Patricia Arquette, carregou Boyhood nas costas. Eles foram minha parte favorita do filme.

▐ MELHOR ATRIZ



Julianne Moore, favorita ou não, emocionou com Para Sempre Alice. O deterioramento gradual pelo Alzheimer é tão puro e dolorido em sua interpretação no longa que, além de ensinar, pesa bastante  no emocional de quem vê.

▐ MELHOR ATRIZ COADJUVANTE



Como disse, Patricia marca meu favoritismo. Em Boyhood, chega a ser divertido vê-la tão vulnerável e confusa em certos trechos e, ainda assim, ofuscar o restante do elenco. A indicação de Emma Stone – acho-a incrível, mas convenhamos – é um equívoco por seu papel complacente em Birdman. Ignorarem o esforço de Jennifer Aniston em Cake como Melhor Atriz e colocar Stone aqui esperneia uma contradição absurda.

▐ MELHOR ROTEIRO ORIGINAL



Mais uma vez, Wes Anderson e Hugo Guinness poderiam angariar o Oscar pelo entranhado e pitoresco enredo de Budapeste, que não se isenta da coesão e de tocar quem assiste. Citação especial para Dan Gilroy com O Abutre, outro esnobado pela Academia com sua proposta difícil e instigante.

▐ MELHOR FOTOGRAFIA / FIGURINO / MAQUIAGEM E CABELO /  DESIGN DE PRODUÇÃO



Começo a pensar se não seria melhor dizer que O Grande Hotel Budapeste poderia ganhar todas as opções e terminar o post. Sua fotografia é um exercício de concentração através das molduras naturais, abusando das cores de um jeito confortável aos olhos e abrindo margem à criatividade dos profissionais envolvidos. Os figurinos se conectam às personalidades do elenco e agregam à dinâmica da montagem final. O resultado é uma obra de arte de frames deliciosamente sequenciados.

▐ MELHORES EFEITOS VISUAIS



Interestelar, sem dúvidas. Toda a preocupação de Nolan em evitar o CGI e optar por estratégias de filmagens e os efeitos práticos possíveis em uma longa dessa magnitude de concepção merece seu devido reconhecimento. 


quarta-feira, fevereiro 18, 2015

O momento em que decidi ser escritor

18|02|15 · Escrever é uma terapia para muita gente. Talvez a psicanálise explique o porquê de tantos de nós se sentirem mais aptos a traduzir em palavras aquilo que sentem — não necessariamente meu caso. Ainda assim, me veio uma forte imprescindibilidade de redigir este texto sem muita cabeça e bem Curupira dos pés.

São tempos difíceis, não há como negar. O curioso é que, sempre que me sinto dessa forma, surge uma espécie de inspiração disforme, aleatória. Não preciso escrever somente o que estou pensando no momento e falho em expressar, tampouco dar continuidade aos meus pseudoromances. A imposição é muito mais pela escrita banal, pelo ato que lhe corresponde.

É engraçado pensar nisso, no sofrimento como um tipo de arte. Uma professora um dia me disse que grandes autores clássicos brasileiros eram pessoas de vidas angustiadas, aflitas. Ela chegou a mencionar que, talvez por isso, suas obras se imortalizassem com sentimentos e emoções que perduram o reconhecer das gerações.



Aquela era a estreia da dúvida se eu desejava, de fato, ser escritor. Os pesares da vida, injustos ou não, me levaram a pensar o real significado daquela pergunta. Com os pés para trás ou na frente, minhas pernas conheciam bem a direita melancólica e a esquerda da angústia. Percebi, com um susto, que nunca havia me autocaracterizado como alguém feliz. Também é engraçado pensar nisso.

Minha alma não era obrigada à dolência para ser um autor, mas ela era, é assim. Um livro como poucos que não se reescreve, apenas se acrescenta. Todo o questionamento me provou que sim, a aspiração da minha vida seria a escrita, publicar livros, desenhar tramas, personagens e, acima de tudo, ser um contador de histórias. Dolorosamente biográficas ou não, minhas histórias. 

Compreendo que, provavelmente, nunca abraçarei o sofrimento como gatilho inspirador, nem saudável isso parece. Em contrapartida, não entendo por total como estou mais propício a escrever quando busco um isolamento tão latente. É querer ser ouvido e a voz não sair, querer ser atendido e não ser visto, registrando em linhas tortas o que aspira que todo mundo e ninguém leia.

Agradeço àquela professora pela catarse que sua aula provocou no então atribulado menino de Ginásio. Conforme desandei a digitar tais parágrafos — curtos e inexatos demais, desculpe por isso —, discorro pelos arquivos, livros incompletos e o calor presente quando falo desse objetivo de vida que é ser escritor. A questão foi o instante em que soube, ao menos em parte, quem eu realmente era e o que almejava me tornar. Questionáveis como arte, dor e sofrimento se escrevem.

Sonhos também.



sexta-feira, fevereiro 13, 2015

3 séries para maratonar no Carnaval



13|02|15 · Nada melhor que aproveitar os dias livres para assistir séries curtas e bem produzidas, como Fargo, Olive Kitteridge e The Knick. Com propostas bastante distintas, elas reúnem o elogio pela crítica, a aclamação dos prêmios e o apreço da audiência.

Fargo



Em janeiro de 2006, Lorne Malvo (Billy Bob Thornton) chega à pequena Bemidji, uma cidade do estado do Minnesota e, com sua malícia e violência, começa a influenciar a população, inclusive o vendedor Lester Nygaard (Martin Freeman). Enquanto isso, os policiais Molly e Gus se unem para solucionar uma série de crimes que acreditam estarem ligados a Malvo e Nygaard. Com uma trama instigante e um desenvolvimento exótico, Fargo vicia já no piloto. O equilíbrio entre as ações suspeitas de Lorne, a investigação e o reflexo de tudo na cidadezinha interiorana é genial e delicioso de ver.

A fotografia asséptica da tundra ártica faz frente às tramas engalfinhadas e personagens complexos, pelos quais nos conectamos em um véu de formas. É um roteiro denso que, contra à maré, luta sem glamour, apostando no terror silencioso que um psicopata influi em uma população cheia de vazios. A produção do FX é baseada em um filme homônimo de 96 e angariou o Emmy e o Globo de Ouro como Melhor Minissérie



Episódios — 10
Duração — 60min
2ª temporada — final de 2015
Gêneros — humor negro, suspense, neo-noir, drama criminal, gótico sulista

Olive Kitteridge


Baseada no romance homônimo vencedor do Pulitzer, a minissérie se passa ao longo de 25 anos na vida da professora de matemática Olive (Frances McDormand) e suas relações com o marido Henry, um bondoso farmacêutico; o filho Christopher, que não aprova suas atitudes como mãe e outros integrantes da comunidade. Apesar dos problemas labirínticos de sua vida simplória, Olive segue com sua frieza e severidade intactas, escondendo, no fundo, um perturbado coração. O quarteto de capítulos envolve rapidamente por sua incursão melancólica e seu denso clima dramático.

O trabalho da HBO nada deixa a desejar, desde o elenco exemplarmente selecionado até os detalhes de locação e trilha sonora que se encaixam como luvas na mão do enredo. Frances incorpora com maestria sem igual a figura amargamente cômica de Kitteridge, atuando com os olhares e fazendo o papel de sua carreira. A trama despretensiosa reforça que nossos cotidianos não possuem grandes reviravoltas, plots ou clímax, mas que, ainda assim, são mais entranhados e observáveis que quaisquer tipos de ficção. Uma história sobre família, casamento, tempo, depressão, vida e, principalmente, nós mesmos.



Episódios — 4
Duração — 60min
Gênero — drama

▐ The Knick


O seriado do Cinemax acompanha a vida dos funcionários do Hospital Knickerbocker na década de 1900 em Nova Iorque. Enfrentando as barreiras morais do momento, a equipe médica liderada pelo Dr. John W. Thackery (Clive Owen) explora novas técnicas com o objetivo de ampliar os horizontes da medicina. A direção dos episódios explicita sua qualidade cinematográfica, instigando o espectador a construir a visão histórica, social e questionadora da época. Apesar de investir nos relacionamentos internos como outros programas hospitalares da TV, eles se sobressaem ao retratarem a realidade crua e politicamente incorreta daquele período essencial da saúde.

Os planos fechados, de iluminação precária, reforçam a falta de recursos de que padeciam, dando maior credibilidade ao contexto. Com temáticas ainda contemporâneas, do racismo, patriarcado às drogas medicinais e o pouco caso com o bem-estar das classes menos favorecidas, a série sequencia comparações pertinentes entre o ontem e o hoje. Não há como negar que, além do embasamento fatídico, o choque com determinados procedimentos também faça parte do seu charme. 



Episódios – 10
Duração – 60min
2ª temporada – 2º semestre de 2015
Gêneros – drama médico, histórico