domingo, maio 24, 2015

[CRÔNICA] Gaiola


24|05|15 · O rebu lhe arrebatou pela madrugada, jogando para o alto o silêncio por entre os travesseiros. Mexe a cabeça de um lado para o outro, tic toc, o pensamento dando suas idas e vindas pela gaiola. Fera selvagem, força da natureza e toda essa baboseira. Tic toc, não voltava para jaula, não podia ser contido. 

Levanta e bebe um copo d'água. Dois. Tic toc. O cárcere range enquanto o sufoca lá dentro, as grades rangem, as garras marcam o ferro. Três. O líquido desce afogando os clamores, fazendo eco de vozes que não estão ali. Elas cantam em uníssono: "gaiola adentro!" Quatro. Banheiro.

A privada só não parece menor do que o espelho. No lugar de seu reflexo, a gaiola, sua sombra, seus sons, reverberações e memórias. Quanto mais trancafiado, mais o pensamento chama atenção para sair, carente. Tic toc. Quando boceja, percebe o cansaço. Abrir e fechar a prisão é tão exaustivo quanto mantê-la de pé. 

Volta para cama e deita, os olhos colados no ventilador congelado no teto. A fera se torna tão sonolenta quanto o vigia da gaiola. Dormem agarrados, bem juntos, confortáveis um no outro. Nada de rebu, repara nos últimos segundos de consciência. 

Se antes houve, já não o ouve.


domingo, abril 19, 2015

[CRÔNICA] O Lar dos Moinhos de Palha


20|04|15 · Divertido pensar como e no quanto afetamos a vida das pessoas, mesmo inconscientemente. Sei da pretensão que é refletir sobre isso sob uma perspectiva tão aleatória, mas, ainda assim, não deixa de ser interessante.

O metrô é um eficiente ecossistema para usar como exemplo, ao ponto de ter me perdido entre as (ironicamente, poucas) linhas que percorre. O terminal Estácio, o qual sempre utilizo para fazer a transferência de uma via para outra, tinha as saídas fechadas - no caso, todas as que eu poderia pegar. Olhar de um lado para o outro não ajudou muito, a plataforma solitária esticava-se com moinhos de palha imaginários rolando de um lado ao outro. Na minha cabeça, eram em pares. Eu, no entanto, estava sozinho.

Decidi subir as escadas distantes e procurar algum guarda (me questionando mentalmente o porquê de não haver nenhum ali) quando duas mulheres, vindo no sentido contrário, me abordaram. Rindo do próprio infortúnio em uma cumplicidade própria, estavam na mesma situação que eu: perdidas. É curioso que, em meio a não saber onde estamos, ainda podemos ser encontrados quando menos esperamos.

Mal me dei conta do acordo implícito. Elas me seguiram para a escadaria, e dali até um grupo de seguranças que nos informou o caminho de estações a ser tomado. Reparei que eles também estavam rindo entre si antes de chegarmos, uma provável piada esquecida no ar logo após me ajudarem. Que eles me desculpem por isso.

Desci para a outra plataforma (a certa dessa vez) e vi que as duas moças me seguiam mais distantes, agora mais tranquilas pela direção teoricamente correta dada pela autoridade em questão. Eu já me fazia passado, havia as afetado da maneira que esperavam de mim, tchau e bênção.

Os vagões amanteigam-se pelos trilhos e leio meu destino no letreiro ao lado. A satisfação de enfim poder voltar para casa me inundava de alívio. No lugar dos moinhos, passageiros e suas rotinas me circundavam. Entre eles, as mesmas mulheres surgiram ao meu lado, a velocidade dos trens a centímetros de nós esvoaçando seus cabelos e encolhendo meus olhos detrás dos óculos.

"Tem certeza que é esse?", me perguntou uma delas, indicando o metrô que freava sem parcimônia. 
Sorri de volta, mais para mim do que a qualquer um naquele lar de moinhos de palha.

"Tenho sim."


sábado, abril 11, 2015

[CRÔNICA] Cretino


14|04|15 · Preciso muito parar de exigir mentalmente das pessoas aquilo que já cobro em excesso de mim mesmo. A frustração inquietante me pega no berço da madrugada, nos instantes eternos de sentidos entre checar as últimas mensagens e ensaiar o sono. Abro o Facebook e não há ajuste de luminosidade que esclareça o porquê das faltas de respostas, ou daquelas que mais confundem do que elucidam. 

O Twitter teia narrativas que não captam minha atenção pelo tardar da noite, as exceções se perdem no leito volátil da timeline. Tudo que postei há algum tempo sem um feedback sequer. Tweets e mais tweets, inúmeros, tanto quanto nós mesmos, caindo e subindo. Cercados dessa polifonia e, ainda assim, somos tão sozinhos.

A carência por ser ouvido e, mormente, correspondido. É o WiFi supremo em qualidade do universo, sempre alcançando nossos dispositivos cranianos onde quer que estejamos. O silêncio fatia as esperanças de felicidade do dia seguinte nas digitações do WhatsApp, um imediatismo conscientemente dramático que me abraça num cretino boa noite.

Programo o despertador com um arrastado inspirar e me atrapalho pelo touchscreen na escolha das horas e minutos. No final das contas, lágrimas não teclam.


terça-feira, março 24, 2015

[POEMA] S


Ah, se você soubesse
Se coragem eu tivesse
E meu coração desse
Caso ele te interesse
Talvez tudo eu pudesse

Ah, se possível fosse
Abandonava esse agridoce
Não falava mais baroce
E cantava minha verdade
que você precisa ouvir.

Ah, ser vara-verde com você
É ficar mal sem ver por que
Sinto nem sei o quê
Ou sei e não vou dizer
Ou digo sem você ver.

Ah, que chegue aos seus olhos
Tudo que não professei
Aquilo no mar joguei
Que você não pescou
E eu afoguei.

E eu afoguei.



Poema "S", de minha própria autoria (Caíque Pereira), 24/03/2015 no Rio de Janeiro.

quinta-feira, março 12, 2015

Previously On My Playlist #1



12|03|15 · Decidi criar essa coluna para compartilhar um pouco do que ouço e, principalmente, descubro no meu gosto musical hoje em dia.

BAD REPUTATION - KELLY CLARKSON



Não gostei em geral do álbum mais recente da cantora, Piece By Piece, mas se tem algo que me conquistou lá na edição deluxe é Bad Reputation. Ela é descolada de um jeito nostálgico, indo mais para o R&B dos anos 90. Além de tudo, brinca na letra com a vontade de se mostrar forte e intangível, escondendo o medo de ter descoberta sua identidade frágil e sensível por aquele alguém que sabe exatamente como fazer isso; um jogo interno na escolha de se vulnerabilizar ou não.

▐ BREAK FREE (cover) - POSTMODERN JUKEBOX



Um achado incrível que merecia até um post próprio. Em meu vício por covers do Youtube, acabei me deparando por acaso com esse projeto musical de versões do pop atual na roupagem de hits antigos, com direito até a banda ao vivo. Minha escolha por sua Break Free, originalmente interpretada por Ariana Grande, foi repaginada no vintage da década de 70, marcada pelos metais de sopro, sobejando-se de vocais poderosos com musicalidade e ritmo únicos. Pura paixão aos ouvidos.

▐ PUPPETEER - MAX



Mais um canal descoberto graças a covers, porém com um projeto mais autoral e conectado ao cenário. Puppeteer é viciante e destaca aparentes tendências, desde o estilo luz & sombra do clipe, tal qual sua canção equilibrando o sexy moroso e o extremamente dançante. MAX é performático e, mesmo não tão conhecido, faz trabalho de profissional e merece reconhecimento. Você também vai se deparar cantarolando "my little puppeteer" e tentando os agudos impossível do cantor. Já espero ouvi-la na trilha sonora de alguma série por aí.

▐ I CAN'T LET GO - JENNIFER HUDSON



Jennifer a interpretou no último Oscar e como me culpei por não conhecê-la antes! Original da extinta série Smash, a qual assisti alguns episódios, I Can't Let Go é daquelas baladas clássicas, atemporais e intensas. A letra se esquiva dentro da batalha de um alguém que cogita aceitar ou não se entregar para seu amor outra vez, graças à más experiências e uma aptidão própria em repetir erros. A vencedora da Academia, como sempre, explode com sua voz de pôr estádios abaixo e deixa tudo ainda mais comovente.

▐ MUG SHOT - MAX


Com um ar mais artístico e encenado do que o single recorrente, Mug Shot constrói bem uma animação quase natural e não se preocupa em levar tão a sério a parte teatral. Divertida, a produção conta com takes incríveis por parte da fotografia aberta. O cantor se contém nos relances, porém volta a acertar em outro fácil chiclete sonoro. Lembrou-me um pouco as propostas de Bruno Mars, todavia com uma assinatura maior de eletrônica e despretensão.



Espero que tenham gostado, pretendo voltar a reunir uma quantidade razoável de canções recém-descobertas para comentarmos. E quais são as suas últimas obsessões sonoras? Deixe nos comentários e até breve!