quinta-feira, 20 de março de 2014

[Resenha] Megan Crewe - O Fim de Todos Nós

(...) tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso".
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Dá para ouvir a progressão inteira da doença nos corredores: tosses, espirros, conversas agressivamente amigáveis e gritos de pânico. Só na terceira tentativa é que consegui chamar a atenção de uma enfermeira ontem, e percebi o porquê quando ela retirou um tampão do ouvido para me escutar. O vírus tem uma voz, e não é muito feliz.
Quando fui apresentado à premissa de "O Fim de Todos Nós" na Turnê Intrínseca no ano passado, parecia um contexto com um pequeno tom de comédia social, porém nem me passou pela cabeça a calamidade fatal que lhe apetecia. Apesar da surpresa positiva, li-o em dois dias apenas, pois era impossível interromper a incrível linha de pensamento que a autora criou para sua obra, raramente abordando o humor que ousei pensar ser o foco. Com personagens sólidos, um cenário fértil e a habilidade de desconstruir toda uma comunidade, não é um livro para passar desapercebido por ninguém - torço que esta resenha exemplifique ao menos alguns dos porquês.
“Acho que precisamos nos concentrar em manter as pessoas informadas sem criar pânico”, disse ela. “Normalmente, as emergências de verdade são causadas mais pelas pessoas que têm medo de ficar doentes do que por aquelas que realmente estão.”
A ilha de Kaelyn foi sitiada e ninguém pode entrar nem sair: um vírus letal e não identificado se espalha entre os habitantes. Jovens, velhos, crianças - ninguém está a salvo, e a lista de óbitos não para de aumentar. Entre os sintomas da doença misteriosa está a perda das inibições sociais. Os infectados agem sem pudor, falam o que vem à mente e não hesitam em contaminar outras pessoas. A quarentena imposta pelo governo dificulta as pesquisas em busca da cura, suprimentos e remédios não chegam em quantidade suficiente e quem ainda não foi infectado precisa lutar por água, energia e alimento. Nem todos, porém, assistem impassíveis ao colapso da ilha e Kaelyn é uma dessas pessoas. Enquanto o vírus leva seus amigos, familiares e tudo que conhece e ama, ela insiste em acreditar que haverá uma salvação. Caso contrário, o que será dela e de todos?
Nosso vírus é muito mais esperto do que aqueles que aparecem nos filmes de zumbi: não deixa as vítimas cambaleando por aí, babando e resmungando, de modo que qualquer um em sã consciência se afaste. Faz com que elas se aproximem das outras pessoas, para poder tossir e espirrar na cara delas.
A escrita de Megan é inescrupulosamente viciante, não há como prometer ler nada além de vários e vários capítulos seguidos, seja pela rapidez com que flui sua narrativa, quanto pela sucessão de acontecimentos que não se atropelam e soam tão verdadeiros. O principal acerto fora usar a narrativa através do diário de Kaelyn, que a mesma utiliza a fim de registrar tudo que acontece a si mesma e aos que estão ao seu redor, um meio de criar uma fonte de todo o horror pelo que está passando - e o diário é direcionado a um amigo que esta perdeu há certo tempo, trabalhando ainda mais os dilemas íntimos da personagem. A abordagem torna-se genial, assemelhando-se por vezes a um relato jornalístico, tamanho o resultado verossímil do conjunto de fatos.
Leo, se você, não sei como, estiver lendo isto, se voltou e estava tentando descobrir o que aconteceu e achou este diário, queime-o. Queime-o agora. [...] o vírus deve estar em todas as páginas.
Kaelyn é uma protagonista excepcionalmente crível, palpável, normal quanto qualquer um aliada a problemas de entrosamento nos quais muitos leitores irão se reconhecer. Logo no começo, quando decide ser uma nova pessoa, mais extrovertida, o vírus surge e dissolve quaisquer planos que ela tenha criado - e ironicamente, faz com que surja uma nova Kaelyn, que precisa se adaptar à rotina de caos, perdas, desapego e desamparo. Através das virtudes das jovens que protagonizam inúmeras histórias de sucesso, destaco a simplicidade no senso de realidade que eu atribuiria a poucas delas. O leque de personagens contribui para a excelência de leitura, onde Megan pode dar a cada um pequenos momentos de desenvolvimento, moldando esferas de personalidades e impressões sem muitas palavras; o rumo do livro também contribuiu para isso.
Durante todo o percurso de volta à casa de Tessa, eu me deixei flutuar nessa sensação, imaginando como conseguia ficar tão feliz com uma coisa quando tantas outras estavam dando errado.
Megan Crewe, a autora.

Acompanhamos as consequências de inúmeros ângulos, desde órfãos cujos pais padeceram devido à enfermidade ou por lutarem por seus direitos nos tempos de crises àqueles que se veem sozinhos, com parentes no continente sem poder se comunicar. O vírus afeta a todos de maneiras inconsoláveis, porém seus dilemas íntimos, que os atormentavam antes mesmo da quarentena, permanecem em seus encalços, revelando muito mais humanidade do que numerosos capítulos descrevendo suas emoções e aparências poderiam sequer prever. A experiência que tive foi através de um e-book, logo não posso opinar sobre a edição física, entretanto a virtual possui uma tipografia agradável, que flui ainda mais o ritmo do texto, além de não ter reparado em erros gerais.
“Não acha que isso é importante?”, perguntei.
“Sei que é importante. Mas, se me colocassem lá, eu ficaria mudo, paralisado. E ele tem tato. É isso que move as pessoas.”
O intuito de "isolar e analisar" não é novidade, sendo trabalhado em outras obras onde se destacam o Ensaio Sobre A Cegueira de Saramago e Sob A Redoma de Stephen King. Há de se considerar o público alvo de Crewe, os jovens adultos, então não há um nível tão aterrador se comparado às obras citadas, contudo o poder com que o material que criou nos atinge é tão esclarecedor e penetrante quanto. O desespero do isolamento do resto do mundo, a noção da orfandade das autoridades, as perdas gradativas de todos aqueles que conhece e ama e o convívio com a morte tira o melhor de todos, restando somente... O pior, o instinto de sobrevivência ou o que realmente são? Kaelyn se depara e relata esse tipo de situação, vendo pessoas que conhece desde pequena agindo como nunca imaginaria antes, em sua essência, em nossa essência, nus de qualquer esperança.
A tempestade que papai mencionou não podia ter causado aquilo tudo — nunca vi um vento nordeste destruir barcos dessa forma. Deve ter sido uma pessoa. Ou várias. Comecei a sentir tanto enjoo que tive que abaixar os binóculos e fechar os olhos. Cada vez que olho em volta, mais alguma coisa se quebrou.
A perda das inibições sociais, fazendo que todos sejam simpáticos, amigáveis e digam apenas a verdade é um mero detalhe diante das camadas de profundidade aplicadas, já que a autora prova que não é necessário sua ocorrência para que conheçamos de fato as pessoas, basta mergulhá-las no caos de uma epidemia. E o leitor é inserido nela, tomando também para si as paranoias de quem ainda não foi infectado e a ideia do risco constante que paira entre os atos pela sobrevivência. Eu me vi devastado, despedaçado, tamanha a imensidão com que o plot, a escrita e os personagens de Crewe me envolveram. Sua densidão é inevitável, tristezas que se sobrepõem e arrepiam, surpreendendo ao me pegar desprevenido pela falta de credibilidade que lhe dei. Não esperava gostar tanto dele quanto o fiz, nem mesmo sei se o deveria.
Estamos em um penhasco, todos nós, e a sobrevivência não é uma questão de ser melhor ou mais inteligente. É uma questão de resistir o máximo possível, de tentar, falhar e tentar novamente até se aproximar um pouquinho mais de uma solução.
Outro ponto que martelou em minha mente é o modo do vírus, a doença em si, se tornar praticamente um antagonista invisível da trama, ao mesmo tempo sendo o mais presente dos personagens. Ela me remeteu às sensações tão comuns e indesejáveis que cruzam nossas vidas, como ver alguém que amamos padecendo de algo e não poder fazer nada ou a autopreservação, em não auxiliar um enfermo no receio de se contaminar. A doença que força nossos limites éticos, toca na ferida, questiona nossa compaixão e expõe à força quem somos, como um perverso lembrete de que tudo pode mudar quando menos estamos preparados - e nunca estamos preparados.
A maioria das pessoas pensa que o mais assustador é saber que vai morrer. Não é. É saber que você pode ter que assistir a todo mundo que você já amou — ou mesmo apenas gostou — definhar e não poder fazer nada. 
Quanto mais apreciamos uma história, mais difícil é resenhá-la e acreditem, não fora uma tarefa fácil de tentar expor em palavras, portanto relevem se devaneei demais ou não ofereci tantas informações do enredo quanto gostaríamos. Espero que leiam o quanto antes possível O Fim de Todos Nós, se envolvam, sofram e tenham suas mentes pesadas e os corações angustiados tanto quanto eu - compreenderão melhor o que almejei dizer, porque o que podia compartilhar, pôr para fora, foi feito. Agora a escolha é sua de dar uma chance ou não à linda tragédia que poderia subtitular-se com "baseado em fatos reais" - isso não me surpreenderia.
Tive a sensação de que havia sido tudo um sonho quando acordei hoje de manhã. Mas eu ainda estava calçada, e Meredith apertava RonRon embaixo do braço. E quando desci para preparar o café da manhã, a arma de choque estava em cima da mesa de jantar. Porque isso é a nossa vida agora.
Título: O Fim de Todos Nós (#1 - Trilogia Fallen World).
Autor: Megan Crewe.
Editora: Intrínseca.
Número de Páginas: 272.
Tradução: Rita Sussekind.

domingo, 9 de março de 2014

[Resenha] Jessica Spotswood - Enfeitiçadas

♪ Vou abrir esse livro e soprar a poeira
Para fora dessas páginas de desejo e luxúria
Vou procurar o feitiço perfeito para você ♪
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                                                                                                                                                                          Witches Brew - Katy B

Bruxaria é sempre um assunto que me fascina nos meios de entretenimento, desde a infância com Hocus Pocus e The Witches à adolescência em Hogwarts e na juventude e além com O Círculo Secreto e American Horror Story. Com título sugestivo e um trabalho visual de tirar o fôlego ao vivo, Enfeitiçadas tornou-se leitura desejada a partir do momento em que a Editora Arqueiro divulgou seu lançamento e, posteriormente, cedeu o exemplar para esta resenha. Com razoável expectativa, adentrei à realidade mágica, criativa e bem delineada de Jessica Spotswood.

Antes do alvorecer do século XX, um trio de irmãs bruxas chegará à idade adulta. Uma delas terá o dom da magia mental e será a mais poderosa a nascer em muitos séculos: ela terá poder suficiente para mudar o rumo da história, para suscitar o ressurgimento do poder de sua espécie ou um segundo Terror. Quando Cate descobre essa profecia no diário de sua falecida mãe, entende que precisa repensar seus planos com relação às suas irmãs e si mesma. Qual será a melhor opção: servir à Irmandade, longe dos olhos vigilantes dos Irmãos, caçadores de garotas como elas, aceitar uma proposta de casamento que lhe garanta proteção e segurança ou abandonar tudo e viver um grande amor proibido?
Penduro minha capa, confusa. Se eu fosse reparar em um homem, deveria ser em Paul. Mas seu coração bate mais forte quando está perto dele?
Realmente me surpreendi com a ambientação do livro. Sabia pouquíssimo sobre a história e isso me auxiliou a desenvolver uma noção de espaço dentro da narrativa e discernir alguns pontos estruturais enfraquecidos - o ritmo, sem dúvida, é um deles. Apesar de melhorar a instigação do leitor ao se aproximar do fim, a história é lenta, indecisa e precisei de força de vontade para prosseguir no começo e meio. O enredo demora a mostrar a que veio, deixando aperitivos ao longo de capítulos que podem parecer intermináveis onde, ao invés de suscitar um interesse gradativo, acabam por frustrar quem esperava por uma movimentação qualquer.

Por experiências anteriores, é de conhecimento comum que o primeiro livro de uma série, como esse de qual falo, possui uma carga introdutória quase sempre extensa, o que não necessariamente precisa ser feito sem motivar o leitor a continuar. Jessica tem uma escrita romântica e simples, entretanto, abordando o que poderia ser seu calcanhar de Aquiles, tal qual o amor proibido da protagonista, como parte essencial e não principal de sua obra. Isso conta muitos pontos comigo.
- E você é ainda mais divertida do que eu me lembrava.
Sou mesmo? Não me sinto muito divertida. Talvez ele tenha atribuído a mudança ao fato de eu ter crescido, de ter me tornado uma moça. Talvez seja assim que todas as garotas se sentem; sufocadas e mudas.
Cate é verossímil e um papel central que aprendemos a gostar, ainda que muitas de suas ações adotem noções duvidosas. Alguns de seus dilemas poderiam ser solucionados com uma segunda opinião, e foi difícil perceber quais de tais erros a autora inseriu com o objetivo de credibilidade o que contava e quais não. Considerando o gênero literário, vejo como um bom trabalho a carga emocional e psicológica que lhe foi empregada, sentindo-se responsável pelo pedido da finada mãe para que cuidasse de suas irmãs, solitária pelo fardo de protegê-las sem qualquer tipo de auxílio, iludindo o amigo cujo amor não podia corresponder sem magoá-lo e recusar a felicidade em prol do dever com sua família. Independente das falhas gerais, dadas as circunstâncias, Catherine é uma bola de neve nada artificial.

Suas irmãs acabaram me cativando de alguma maneira ou me levando a detestá-las através de sua visão. Raros foram os personagens que tiveram a chance de serem mais desenvolvidos e não há problema nisso porque, mais uma vez, há de se lembrar que é o livro debutante de uma série. Sendo uma sociedade do século 18, com poucos detalhes e demonstrações da mentalidade vigente, somos capazes de visualizá-los em nossa mente, graças à experiência com longa-metragens, seriados e afins que ocorrem por essa época. 
- [...] não tenho mais tempo de ler.- Essa foi a coisa mais triste que ouvi hoje [...] Ler é a fuga perfeita para qualquer coisa que a aflija.
A forma como a responsabilidade familiar foi escrita é ideal para principiar leitores que desejam ler dramas mais íntimos, reais e emocionalmente complexos. O retrato da busca das mulheres por liberdade, sua compreensão por sexo frágil, a opressão religiosa e a reação à bruxaria em analogia às diferenças de hoje que são vistas com o mesmo repúdio valorizam e amadurecem a contexto - não só por sua lidimidade, mas por consolidar a jornada da heroína. Um desafio, ainda assim, onde 65% a 70% do texto soa a um inexorável tédio, tanto que no final das contas o maior fator compelindo-me a concluir o livro era, puramente, as figuras das irmãs Cahill. Senti-me obrigado pela curiosidade de saber o que iria lhes acontecer e, ao terminar, fui recompensado de certas maneiras. 

Meu exemplar chegou danificado na ponta da contracapa, no alto da lombada, com um amassado e alguns finos descolados no fim da capa - desconheço se tal é ou não o trato dos Correios-, porém fora isso, todo o trabalho físico é bem satisfatório. A frente, como já comentei anteriormente, é de uma fotografia estonteante acompanhada do título em um dourado brilhante e delicado ao mesmo tempo. A tipografia é de tamanho médio e não desfavorece a leitura, contando com um design incrível de detalhes no início de cada capítulo. 
Eu sei o que os Irmãos diriam: a magia não é um dom do Senhor, é coisa do demônio. Mulheres capazes de fazer magia ou são loucas ou perversas. Estão destinadas a um hospício, na melhor das hipóteses, ou a um navio-prisão - se não a um túmulo precoce.
A obra de Spotswood está distante de se caracterizar como uma leitura fácil ou ininterruptamente divertida – longe disso -, porém seu enredo cativante e suas irmãs quase co-protagonistas acabam abraçando o ledor quando ele menos espera. No final das contas, é um entretenimento, um passatempo saudável e você pode ter uma opinião bem mais positiva que a minha ou concordar comigo e preservar seu tempo de um livro que mal engata onde vale a pena. Contudo estamos tão acostumados a ver ficção histórica como um pano de fundo para romances, softporn e similares que eu diria que é hora de dar uma chance às bruxas. 

Título: Enfeitiçadas.
Autor: Jessica Spotswood.
Editora: Arqueiro.
Número de Páginas: 272.
Tradução: Ana Ban.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Alguns porquês de um blogueiro

Gorgeous color of the dress and the hair against the dark foliage. From Winslow Homer, a masterly water color.
The new novel, 1877 - Winslow Homer.
















Sabe aquela intensa necessidade de escrever algo ao passo que desconhecemos o motivo? Peguei-me dessa maneira por várias vezes enquanto escrevia este texto. Provavelmente ele sirva mais para me autojustificar, em uma urgência mais própria que coletiva - eu sei que me cobro muito. Tal qual o título, venho aqui tratar de explicações: por que eu não posto com mais frequência? Por que as resenhas são quase mensais? Qual a razão do LLM estar tão estático? Enfim, eis minhas sinceras e subjetivas respostas.

Nem tudo que leio desejo compartilhar. Livros criam relacionamentos tão íntimos conosco às vezes, que simplesmente não faz sentido arquitetar uma crítica redundante, impessoal e nada nivelada com a experiência e a excelência da obra como um todo.

A rotina corrida é clichê, porém uma realidade incômoda. Sinto-me cansado e lânguido mais que o usual, mesmo quando a leitura é instigante. Talvez seja uma característica de amadurecimento ou a fase da minha vida. Conto além disso meu ritmo lento de leitura, se comparado à maioria da blogosfera. 

Não leio dez, quinze volumes em trinta dias, aliás, felicito-me ultimamente ao conseguir terminar um e começar outro dentro de um mês. A situação também se deve por dividir demais meu tempo entre trabalho, compromissos, filmes e (muitas) séries. Queria ler mais rápido, aumentar minha quantidade de lidos mensalmente, e não se pode ter tudo - não padeço em infelicidades por isso.

O projeto do blog há muito não me é tão reluzente aos olhos, é desafiador e delicioso resenhar, contudo é difícil não ter os comentários, o feedback esperado. Não que eu nos divulgue absurdamente ou crie mil e uma promoções-chamarizes para visitantes passageiros; é bem provável que eu seja um tanto idealista e abstrato demais com onde quero chegar com o LLM. Não me canso de dizer: é um trabalho ingrato.

O site me proporcionou amizades que vou levar para vida toda, colegas que é sempre bom rever, manter contato e que tanto acrescentam no meu dia-a-dia através de suas palavras, noções importantíssimas e vivência no meio literário. Falo de um lugar onde posso afirmar minha voz e, acima de tudo, experienciar coisas impossíveis de textualizar. Não estou pronto para viver sem meu hobby-compromisso de blogueiro literário e encontro-me ainda mais despreparado a imaginar meu futuro sem o Livros, letras e metas.

Portanto, com adendos aqui e acolá, peço desculpas a mim e a você - que se propôs a ler esse relato de tom duvidoso - por tantas faltas com o blog. Surgem ideias, planos, venturas e vontades, mas o destino gosta de me contrariar, assim, esperemos que posts pontuem um intervalo e outro entre resenhas mais hora, menos hora. Obrigado por sua atenção e torcendo para que signifique algo, um até breve!

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

[Resenha] Richelle Mead - O Beijo das Sombras

Vampiros como nunca se viu - e de um jeito bom de se dizer.
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“Nós nunca encontramos com um Strigoi,” eu respondi rigidamente.
“Obviamente,” ele disse com um risinho. “Eu já percebi isso, vendo como você continuava viva.” 
Comecei 2014 em uma tentativa promissora de ler A Menina Que Roubava Livros antes da estreia do filme homônimo, mas principalmente por querer atestar os elogios que tantos conhecidos e amigos tecem acerca da história. Falhei em não conseguir levar a leitura adiante ou mesmo ser cativado por ela - e se tentarei novamente no futuro, é outra história -, então lembrei-me de que o próximo livro debatido no Clube do Livro que frequento seria "O Beijo das Sombras". Como já queria experienciar a escrita da autora há algum tempo, não hesitei em trocar a Alemanha nazista pela Academia St. Vladimir.
Lissa sempre frequentou à missa regularmente. Eu não. Eu tinha um acordo estável com Deus. Concordara em acreditar na existência dele – mal acreditar -, contanto que ele me deixasse dormir até mais tarde aos domingos.
A Academia São Vladimir não é uma escola como outra qualquer; é um esconderijo onde vampiros aprendem a controlar seus poderes e dampiros são treinados para protegê-los. Rose Hathaway é uma dampira - metade vampira, metade humana - que treina para ser a Guardiã de sua melhor amiga Lissa, uma princesa Moroi - uma raça mortal de vampiros que co-existe pacificamente com os humanos e só bebem sangue de doadores, além de possuírem habilidades mágicas relacionadas aos elementos. Do lado oposto da sociedade vampírica existem os Strigoi, sugadores de sangue imortais e cruéis que atacam para matar, se alimentando principalmente de Morois. Há dois anos fugindo, Rose e Lissa agora se veem capturadas quando descobrem que, na verdade, serão levadas de volta à Academia - justamente o lugar onde mais estão em perigo.
Forçar uma criança de cinco anos a soletrar Valisia Dragomir e Rosemarie Hathaway era mais do que cruel, Lissa e eu éramos amigas desde o jardim de infância, quando nossa professora nos colocou em duplas para os exercícios de escrita. E nós teríamos – ou melhor, eu teria – respondido apropriadamente. Eu atirei meu livro na professora e a chamei de fascista bastarda. Eu não sabia o que aquelas palavras significavam, mas eu sabia como acertar um alvo em movimento.
A escrita de Richelle é deliciosamente veloz e simples, livre de vícios que sugiram algum objetivo audacioso ou algo além do que está escrito, surpreendendo-me por várias vezes. Não me via dando o devido crédito à história de vampiros - tema um tanto saturado no mercado editorial - de diversas espécies, o que foi de suma importância para meu deslumbramento. A narração é leve e precisa, levando-me a mergulhar no que foi proposto sem muitas pausas, pois as páginas passavam sem dificuldade com o ritmo ágil, o tom divertido e a sagacidade do clima que a realidade de Academia de Vampiros tem. Uma obra como essa, além de melhorar qualquer imagem mal trabalhada que mantive sobre tais seres na literatura, partiu meu ceticismo sobre si mesma em tantos pedaços quantos alguém poderia contar.
Minha mãe dampira era escocesa – ruiva, com um sotaque ridículo – e me falaram que meu pai Moroi era turco. Essa combinação genética havia me dado uma pele da mesma cor do interior de uma amêndoa, junto com, o que eu gostava de pensar que eram, as características de uma princesa semi-exótica do deserto: grandes olhos escuros e cabelos de um castanho tão escuro que normalmente parecia ser preto. Eu não teria me importado de ter herdado o cabelo ruivo, mas a gente usa o que tem.
A hesitação em transferir inúmeras possibilidades promissoras para um tipo de ensino médio poderia ser um tiro mal dado no escuro, se não contássemos com os personagens que possuímos. Com menos clichês e mais credibilidade no que diz respeito a dilemas sociais, emocionais e os previsíveis que já são a cola de quase todo bom texto para jovens, a grande maioria de figuras conta com participações estratégicas e bem executadas vistas como um todo. A imagem de Lissa é um retrato da essência do livro de que nem tudo é aquilo que parecer ser, quando essa poderia passar por uma donzela indefesa e é, na verdade, uma camada de vias mentalmente perturbadas e poderosas. Rose é outro um primor, a protagonista que você deseja acompanhar do início ao fim por seu caráter corajoso, imprevisível e pouco conservador. É o tipo inconvencional de heroína que não tenta agradar ou cativar o leitor, contudo seu humor irônico e a aversão natural às regras fazem todo o trabalho.
Era irônico que dampiros despertassem tamanho fascínio aqui, porque as delgadas garotas Moroi se pareciam muito as modelos de passarela super-magras tão famosas no mundo humano. A maioria dos humanos nunca poderá alcançar esse “ideal” de magreza, como as garotas Moroi nunca poderão se parecer comigo. Todo mundo queria o que não podia ter.
Assim como minhas expectativas quanto ao texto em geral, não esperava uma profundidade inenarrável em um sobrenatural young adult, entretanto os tópicos discutidos com relação a perdas familiares, depressão juvenil e a idealização da imagem de pessoas públicas soaram verossímeis, logo nada que Mead propôs escapuliu de seu controle - o que dispôs a apresentar, fê-lo corretamente. A mitologia criada é outro ponto sem igual, não me imaginaria comprando a ideia de raças vampiras com relações e características tão particulares entre si, sendo exatamente o que ocorreu. No começo tudo pode parecer exagerado e inventivo, contudo a autora traça o caminho do entendimento de maneira que repercuta naturalmente, sem brechas para longos estranhamentos.
"As maiores e mais poderosas revoluções frequentemente começam em silêncio, escondidas nas sombras." - Ele olhou nos meus olhos. - "Lembre-se disso."
Se houve uma especialidade da qual gostei na escrita de Richelle foi a sensação de estar próximo ao final com tantos nós a serem dados e tudo se conectar de um só jeito ainda com espaço para suscitar surpresas e ganchos à continuação. Apesar disso, não tive impressão de correria nas últimas páginas - situação corriqueira entre leitores - e o mistério bem amarrado acabou ganhando suas devidas explicações. Como li a versão digital da obra, não possuo observações sobre o exemplar impresso, porém atento para o estilo de capa da série - esta é a primeira história de um total de seis, todos já publicados no Brasil - que exibe o rosto dos personagens. Particularmente, prefiro que capas de livros não mostrem o rosto de ninguém - exceto nas que promovem alguma outra mídia, como as de filmes -, todavia não me incomodam quando elas o fazem, não chegam a me ditar o jeito que devo ou não devo imaginar os personagens.
Eu não podia ser a namorada do Mason porque quando eu imaginava alguém me segurando e sussurrando coisas sujas no meu ouvindo, ele tinha um sotaque russo.
O timing é outro ponto forte, porquanto as informações são dispostas de modo a não sobrecarregar quem lê, fatos quase impercebíveis revelam significâncias ousadas no futuro e a trama inteligente prende o ledor por suas incógnitas. A forma como os relacionamentos amorosos são retratados também evitaram que eu rolasse os olhos por várias vezes como costuma acontecer nos trechos que trazem esse tema nos livros da categoria, com a positiva falta de descrições admiradas por parte de Rose. Sua atração física por determinado personagem evidenciava uma explosão de hormônios da adolescência, nada insosso e até bem empregado na narrativa. Em contrapartida, sua obsessão - e digo "sua" pela ausência de pontos de vista de outros Guardiões e dampiros em geral - em proteger a melhor amiga, embora faça parte da própria natureza criada por Mead a tais criaturas, incomoda e ultrapassa os limites da autopreservação; qualidade esta pouco vista no gênero e por algumas vezes, compreendida erroneamente como egoísmo.
- Eu não acho que seja justo a escola me manter afastada das minhas necessidades... religiosas. [...]
- Eu não estava informada de que você tivesse necessidades religiosas.
- Eu encontrei Jesus quando estava fora da escola.
- Sua mãe não é atéia? [...]
- E o meu pai é provavelmente muçulmano. 
Vampiros mortais que precisam de proteção e usam de magia, filhos de vampiros e humanos que precisam protegê-los para perpetuar sua espécie e um inimigo comum que já é praticamente o que estamos acostumados. Eu sei, também pensei o que a maioria dos que lerem isso estarão pensando, mas com engenhosidade, Richelle Mead encontrou um novo meio bem sucedido de se falar sobre o mito dos sanguessugas e de modo destemido o fez, onde mesmo os mais arraigados aos caixões no quarto e às longas capas negras podem dar um voto de confiança. Rápida e divertida, a leitura consegue instigar e prender por seus enigmas, logo evite grandes expectativas e arrisque pelo entretenimento, pela roupagem diferente. Afinal, cada vez mais, somos abraçados por versões, remakes, remodelagens e afins em inúmeras mídias, que se bem feito pergunto-me: por que não?
"[...] Impeça-a antes que eles descubram, antes que eles descubram e a levem embora também. Tire-a daqui. Salve-a de si mesma!"
Título: O Beijo das Sombras.
Autor: Richelle Mead.
Editora: Nova Fronteira.
Número de Páginas: 320.
Tradução: Inês Cardoso.

sábado, 28 de dezembro de 2013

As vantagens de estar em um clube do livro

Como crianças que cresceram assistindo Sessão da Tarde estão para a vontade de ter uma casa na árvore, leitores estão para o desejo de pertencer a um clube do livro. Toda a magia de debater, argumentar, trocar experiências ao vivo, ser ouvido(a) e confraternizar com aqueles que compartilham do seu gosto reside nesse sonho que nós, blogueiros literários, almejamos satisfazer levemente através de nossas páginas. Entretanto, muitos felizardos conseguem sim manter um clube como tal e, há algumas semanas, resolvi visitar um que a Gabi, do Livro, Filme e Cia., sempre me aconselhava - e é extremamente perto de onde moro, o que é incomum e espetacular ao mesmo tempo. 

Minha experiência foi a melhor possível e mal posso esperar pelos encontros que hão de vir. Inspirado por sua proposta, o Clube do Livro de Campo Grande/RJ, moderado pela Evellyn e a Viviane do Hey, Evellyn!, resolvi adaptar e reproduzir este post do BuzzFeed, com um estilo um pouco diferente e despojado do que estamos acostumados aqui no blog, em comemoração ao final de ano. Torço para que se divirtam tanto quanto eu enquanto o montava!



1. Ler um livro novo pelo menos uma vez por mês.


Ter um prazo estabelecido o(a) leva a ler até uma data específica, e você provavelmente passará mais tempo entre as páginas do que em frente à tela do computador.

2. Conhecer novas pessoas interessantes.

- Acabamos de nos tornar melhores amigos?
- Yep.
Altamente recomendável levar pessoas que quebram o gelo. Elas sempre começam a festa.

3. E então, fazer novas amizades.


Podem até lhe convidar para casamentos de inconvenientes parentes distantes.

4. Ler textos que você não leria normalmente.


Outra vantagem de um clube do livro diversificado. Os membros possuem interesses diferentes, portanto você acaba expandindo seus horizontes literários. Quem sabe não põe nos favoritos aquele título cuja história nunca se imaginou lendo?

5. Possuir alguém para dialogar sobre a obra assim que a termina.


Antes mesmo do clube seguinte, afinal há Internet. E o quão bom é não ter que esperar a tradicional agonia ir embora?

6. Vinho tinto (+18).


Sempre haverá suco de uva, fique tranquilo(a).

7. Vinho branco (+18).


Cada clube tem suas preferências, é bem verdade.

8. Todo tipo de vinho (+18 e faça o favor de parar por aí).


Eu nem mesmo bebo!

9. Faça parte de discussões longas e reflexivas sobre sua última leitura.


10. Ou se engaje em debates acalorados.


Clube do Livro: um lugar de discórdia.

11. Lanches!


Mas deixem os livros de lado nessa hora, ninguém gosta de acidentes.

12. Conversar com os membros sobre a vida, cultura pop e os últimos lançamentos do mercado.


Recomendamos que não gaste 20% do tempo discutindo o livro e 80% comendo e fofocando. Foco.

13. Descubra um ótimo livro que talvez o(a) faça chorar.


14. Ou argumente coletivamente sobre histórias ruins e personagens piores ainda.


15. Fique ansioso(a) pelo próximo encontro.


16. E defenda seu clube do livro contra qualquer um que se atreva a desmerecê-lo.


E você, qual é a sua experiência com um clube do livro? Ou ainda são somente planos? Comente e compartilhe conosco!



Aproveito este último post do ano no blog para desejar-lhes um ótimo Réveillon e expressar um pouco da minha gratidão por aqueles que aqui deixaram suas opiniões imprescindíveis, até mesmo aos leitores-mudos e por você, que simplesmente está lendo esse texto. Espero ver a todos - e ler seus comentários *risos* - em 2014; um forte abraço, muita paz, saúde e boas leituras!