domingo, junho 07, 2015

[CRÔNICA] Café Econômico

07|06|15 · A hora pisca no celular e encho a metade da (terceira, quarta?) xícara de café do dia. Ando ágil rumo à agência bancária com a ideia de que, quanto mais cedo chego lá, menos tempo levarei para voltar para casa.

— Pede a (quentinha) grande para mim.
— Tá, vai querer o quê? 
— Bife acebolado, sem farofa. Tô igual a presidiário, uma refeição por dia.
— (risos) Essa é para o dia todo, né? 
— É, aí à noite eu não como, só bebo.

A conversa entre os dois funcionários sobe em meio ao silêncio falso do ar condicionado chiado, as impressoras proletárias e a máquina de senhas. A fome sobe gritando a via crucis do meu estômago, bem na fila do banco durante a hora do almoço.

Não faço ideia do que vou comer em casa, apenas que será corrido. Tudo é bem rápido hoje em dia — menos ir ao banco.

— Vai me esperar? — negocia a jovem sentada atrás da placa Empréstimos e Financiamentos com outra prestes a sair pela porta giratória. 
— Vou sim. Eu pedi um filé, quero comer uma proteína.

Quando finalmente é minha vez, o atendente (que antes ligou para pedir a quentinha do colega) me diz para separar os documentos.

— Enquanto você faz isso, vou dar um pulo ali e já volto.

Ele some como o primeiro milho que estoura para fora da panela e você nunca encontra nos desbravamentos do chão da cozinha. Expiro um tanto quanto forte demais, os papéis da pasta tremulam em resposta. No final das contas, até que uma pipoca cairia bem.


domingo, maio 24, 2015

[CRÔNICA] Gaiola


24|05|15 · O rebu lhe arrebatou pela madrugada, jogando para o alto o silêncio por entre os travesseiros. Mexe a cabeça de um lado para o outro, tic toc, o pensamento dando suas idas e vindas pela gaiola. Fera selvagem, força da natureza e toda essa baboseira. Tic toc, não voltava para jaula, não podia ser contido. 

Levanta e bebe um copo d'água. Dois. Tic toc. O cárcere range enquanto o sufoca lá dentro, as grades rangem, as garras marcam o ferro. Três. O líquido desce afogando os clamores, fazendo eco de vozes que não estão ali. Elas cantam em uníssono: "gaiola adentro!" Quatro. Banheiro.

A privada só não parece menor do que o espelho. No lugar de seu reflexo, a gaiola, sua sombra, seus sons, reverberações e memórias. Quanto mais trancafiado, mais o pensamento chama atenção para sair, carente. Tic toc. Quando boceja, percebe o cansaço. Abrir e fechar a prisão é tão exaustivo quanto mantê-la de pé. 

Volta para cama e deita, os olhos colados no ventilador congelado no teto. A fera se torna tão sonolenta quanto o vigia da gaiola. Dormem agarrados, bem juntos, confortáveis um no outro. Nada de rebu, repara nos últimos segundos de consciência. 

Se antes houve, já não o ouve.


domingo, abril 19, 2015

[CRÔNICA] O Lar dos Moinhos de Palha


20|04|15 · Divertido pensar como e no quanto afetamos a vida das pessoas, mesmo inconscientemente. Sei da pretensão que é refletir sobre isso sob uma perspectiva tão aleatória, mas, ainda assim, não deixa de ser interessante.

O metrô é um eficiente ecossistema para usar como exemplo, ao ponto de ter me perdido entre as (ironicamente, poucas) linhas que percorre. O terminal Estácio, o qual sempre utilizo para fazer a transferência de uma via para outra, tinha as saídas fechadas - no caso, todas as que eu poderia pegar. Olhar de um lado para o outro não ajudou muito, a plataforma solitária esticava-se com moinhos de palha imaginários rolando de um lado ao outro. Na minha cabeça, eram em pares. Eu, no entanto, estava sozinho.

Decidi subir as escadas distantes e procurar algum guarda (me questionando mentalmente o porquê de não haver nenhum ali) quando duas mulheres, vindo no sentido contrário, me abordaram. Rindo do próprio infortúnio em uma cumplicidade própria, estavam na mesma situação que eu: perdidas. É curioso que, em meio a não saber onde estamos, ainda podemos ser encontrados quando menos esperamos.

Mal me dei conta do acordo implícito. Elas me seguiram para a escadaria, e dali até um grupo de seguranças que nos informou o caminho de estações a ser tomado. Reparei que eles também estavam rindo entre si antes de chegarmos, uma provável piada esquecida no ar logo após me ajudarem. Que eles me desculpem por isso.

Desci para a outra plataforma (a certa dessa vez) e vi que as duas moças me seguiam mais distantes, agora mais tranquilas pela direção teoricamente correta dada pela autoridade em questão. Eu já me fazia passado, havia as afetado da maneira que esperavam de mim, tchau e bênção.

Os vagões amanteigam-se pelos trilhos e leio meu destino no letreiro ao lado. A satisfação de enfim poder voltar para casa me inundava de alívio. No lugar dos moinhos, passageiros e suas rotinas me circundavam. Entre eles, as mesmas mulheres surgiram ao meu lado, a velocidade dos trens a centímetros de nós esvoaçando seus cabelos e encolhendo meus olhos detrás dos óculos.

"Tem certeza que é esse?", me perguntou uma delas, indicando o metrô que freava sem parcimônia. 
Sorri de volta, mais para mim do que a qualquer um naquele lar de moinhos de palha.

"Tenho sim."