sexta-feira, 24 de outubro de 2014

[Resenha] Jeff VanderMeer - Aniquilação

"A imperfeição é bela, a loucura é genial e é melhor ser absolutamente ridículo que absolutamente chato."

                                                                                                                                                                                        Marilyn Monroe

Reconhece aquele sentimento de que investiu, tentou, voltou a tentar e não chegou a lugar algum? É assim que me sinto com relação a Aniquilação, obra cedida pela parceria com a Intrínseca que tinha todas as chances ao seu favor. Todavia, através de uma trama imobilizada, personagens inexpressivos e uma escrita inflexível, a tarefa de concluí-lo não foi nada menos que árdua. 

Um grupo de quatro mulheres são enviadas para a Área X, um lugar incompreensível e isolado do restante do mundo há décadas, onde a natureza tomou para si os últimos vestígios da presença humana. Elas fazem parte da décima segunda expedição ao local, cujos objetivos são explorar o terreno desconhecido, tomar nota de todas as mudanças ambientais, monitorar as relações entre elas próprias e, acima de tudo, não se contaminarem. Uma missão mortal, visto que todas as expedições anteriores tiveram resultados assustadores, como suicídios em massa, tiroteios descontrolados e casos de mudança de personalidade súbita seguidos de morte por câncer. As mulheres partiram para a Área X esperando o inesperado…
E foi exatamente isso que encontram.

O estilo teso de VanderMeer, infelizmente, não cativa. A leitura prossegue rígida, presa em suas próprias conjecturas, impedindo um aproveitamento maior do entretenimento em si. Não procuro livros fáceis de serem lidos, mas algo muito específico não se conectou comigo enquanto leitor, tampouco como resenhista. Temo não ter tanto o que analisar dessa experiência que adiei o quanto pude e, quando realizei, corri para terminar o mais depressa possível. 

A protagonista - que conhecemos apenas tal qual "bióloga" - se faz tão rija quanto a realidade que a envolve e pouco agrega a quaisquer pareceres gerais que eu viria a ter. Excetuando ínfimos detalhes, poderia se caracterizar uma coadjuvante por sua postura baldada e enfadonha. O enredo promissor não faz jus ao que a história, de fato, entrega ao leitor, com o lento desenvolvimento maçante que me levou a procrastinar tanto o fim da leitura.

Muito provavelmente, o único fator merecedor de um salvo-conduto é a diagramação impecável, o trabalho interno é bem impressionante considerando o pequeno número de páginas. Ainda assim, torcer por um livro não garante sua qualidade e Aniquilação desvizinhou-se dos adjetivos positivos que sempre tenho prazer em oferecer nas ocasiões cabidas. Sorte aos que arriscarem lê-lo.

Título: Aniquilação (Comando Sul #1).
Autor: Jeff VanderMeer.
Editora: Intrínseca.
Número de Páginas: 200.
Tradução: Bráulio Tavares.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

[Resenha] Raphael Montes - Suicidas

"Eu estou constantemente dividido entre me matar e matar todos à minha volta."

                                                                                                                                                                                                Will & Will
Tentei desviar o olhar, mas não consegui. Minha própria dose de sadismo me fazia querer ver cada detalhe do ato. Sou curioso. Assim como você, leitor, que percorre com avidez estas linhas, eu queria saber exatamente o que iria acontecer. Por mais macabro que fosse. Por mais louco. E eu não me importo. Não se importe você também. Ninguém está olhando... Ninguém vai nos condenar por estes segundinhos de sordidez...
No Clube do Livro que frequento, em Campo Grande/RJ, Dias Perfeitos, de Raphael Montes, foi a mais recente obra analisada e o próprio escritor marcou presença no dia. Mesmo sem ter lido o dito cujo, aproveitei a ocasião e saí de lá ávido pela leitura, ainda que já soubesse todo o enredo. Dessa forma, optei por dar vazão ao Suicidas, seu romance de estreia, e logo nas primeiras páginas já pude perceber que não iria me arrepender, tampouco usufruir de uma experiência totalmente sã.
A morte é apenas uma das formas desta triste partida. Existem outras. Piores.
Um porão, nove jovens e uma Magnum 608. O que poderia ter levado universitários da elite carioca - e aparentemente sem problemas - a participarem de uma roleta-russa? Um ano após o trágico evento, que terminou de forma violenta e bizarramente misteriosa, uma nova pista, até então mantida em segredo pela polícia, ilumina o nebuloso caso. Sob o comando da delegada Diana Guimarães, as mães desses jovens são reunidas para tentar entender os motivos e o que realmente aconteceu. Por meio da leitura das anotações feitas por um dos suicidas durante o fatídico episódio, serão submersas no turbilhão de momentos que culminaram na morte dos seus filhos. A reunião se dá em clima de tensão absoluta, verdades são ditas sem a falsa piedade das máscaras sociais e, sorrateiramente, algo muito maior começa a se revelar.
Nunca pensei que meter um tiro na cabeça chamasse tanta atenção. No dia em que eu quiser aparecer na mídia, é só pegar um revólver e pipocar meu cérebro. Vou me lembrar disso.
A escrita de Raphael é tensa, facilmente imersiva e limpa de quaisquer caguetes narrativos. As frases diretas e a falta de floreios exemplificam ainda mais seu talento não apenas como contador, mas arquiteto de uma história complexa, intrincada e de um ritmo frenético. Os três tempos narrativos - as anotações pré e durante a roleta-russa, além da gravação da reunião das mães - convergem de forma brilhante, tecendo uma mesma narrativa que se completa fora da ordem casual. Vamos, voltamos e paramos ao bel prazer do autor, ansiosos com os ganchos bem bolados e pontuados ao final de cada capítulo. As páginas correm, o leitor agoniza e o conto se sobressai.
Há algo de interessante na relação entre catástrofe e notícia. Quero dizer, quando um avião cai e morrem duzentas pessoas, misteriosamente, milhares de quedas de avião ao redor do mundo são noticiadas na semana seguinte. O mesmo acontece com crianças violentadas, balas perdidas e tufões que derrubam as casas dos norte-americanos. Depois, tudo se amorna. O assunto passa a ser outro, a queda de um avião em um lugar distante nem é mais tão chocante assim. Tudo é normal. Rotineiro.
É tremenda a dificuldade em apontar algum protagonismo em Suicidas que não seja o da trama em si. Os personagens conseguem pontuar positivamente momentos de aprofundamento, uns bem mais que outros, porém mesmo esse desnível é compreensível e funciona com o livro. Eles são palpáveis, embora alguma impressão de estereótipo possa florescer, mas não seria difícil reconhecer tais fenótipos no dia-a-dia. Pelo caminho que Raphael se propõe a levar o leitor, certas figuras-chave, como aquele que faz as anotações antes e durante a tragédia e seus amigos mais próximos acabam por se destacar - e não sem propósito. Confesso que gostaria de saber mais sobre determinados personagens, como Otto e Ritinha, o que poderia ser abordado, talvez, sem tirar o foco das tais figuras que mencionei. Não há lacunas, veja só, apenas a curiosidade de alguém que poderia, sem pestanejar, mergulhar no universo de Montes ad astra et ultra.
[...] quando deixamos de ser humanos? Quando nos tornamos esses monstros armados e delinquentes? Como umas doses de álcool, alucinógenos e um porão abafado puderam nos transformar em seres tão pífios? E, sim, eu me incluo no grupo.
Chega a ser divertido, apesar da temática, a maneira como o enredo testa o ledor. Várias abominações são anunciadas, surpresas são quebradas e, quando você vira a página, exatamente aquilo que foi prometido acontece. Aprecio especialmente essa interatividade e, em especial quando um livro consegue alçar o leitor a tantas gamas reacionais, como Raphael explicita em sua obra. Há riso, choro, dor, sofrimento, horror, suspense e, dependendo do ponto de vista, mesmo romance. Ao meu ver, isso é literatura; uma arte tal qual uma canção que toca quem a ouve, um filme que engole a atenção e a segurança do espectador, uma dança que inspira e surpreende pelos revés, dentre tantas outras vicissitudes. Suicidas é um prato cheio desse espetáculo.
OLÍVIA – Hipócritas! (GRITANDO) Vocês são todas hipócritas! (PAUSA) Eu apenas digo o que todas vocês têm vontade de dizer. (PAUSA) Ou vão falar que têm orgulho dos seus filhos suicidas? (RISO SECO) Suponho que seja a primeira coisa que vocês contam ao falar de si mesmas... O meu filho se suicidou, e eu tenho tanto orgulho disso! Faça-me o favor! Não sejam patéticas!
Os capítulos anteriores à roleta-russa dão boas respiradas no fluxo quase assustador de acontecimentos e declarações, porém fica bastante evidente o pretexto de segurar quem lê até o trecho seguinte dos relatos em tempo real da tragédia. Embora admire bastante a escrita nada prolixa do autor como o aspirante a escritor que sou, talvez essa diegese pudesse ser feita mais suavemente, de um modo menos aparente. O exemplar físico tem uma diagramação confortável aos olhos, mas a fonte não é das maiores e o material externo de capa é facilmente suscetível a marcas. Ainda assim, é de um trabalho belíssimo ao vivo.
Nós somos como todo mundo. Uma família buscando a tranquilidade, aparentando um bem-estar volátil, os problemas pairando sobre nossas cabeças. Tentamos ser felizes, viver momentos inesquecíveis, poéticos, cinematográficos. Mas não dá. Simplesmente não dá.
Suicidas foi uma espécie de livro que me fez atravessar folhas, adiantar obrigações para retornar à leitura e atingir um ápice de reações - da incredulidade a um ataque de risos, sem exageros - com o final estarrecedor. O plot twist tão bem guardado explode de tal forma que, depois de terminá-lo e se recompôr, permanecemos nos perguntando como alguém pode sequer pensar em uma obra assim. Sinto por não fazer jus ao quanto gostei da leitura e como ela precisa ser lida, contudo resenhas de bons livros jamais ficarão à altura de suas inspirações. A você que acompanhou até aqui: corra e adquira esse primor nacional o mais rápido possível e não se esqueça de me contar suas impressões. Ao Raphael: parabéns, acaba de adquirir um leitor bastante fiel.
Eu sempre escrevi histórias policiais, mas elas só têm graça, para mim, no campo da ficção. Perceber a realidade pode ser muito doloroso.
Título: Suicidas.
Autor: Raphael Montes.
Editora: Benvirá (Série Negra).
Número de Páginas: 488.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

[Resenha] Gayle Forman - Se Eu Ficar

♪ Cante-me uma canção de uma jovem que se foi
Diga, poderia essa jovem ser eu? ♪
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                                                                                                                                                           Outlander - Tema de Abertura

Fugindo da massiva onda de comentários sobre A Culpa das Estrelas, procrastinei ao máximo possível sua leitura, até que a fiz pouco depois da adaptação ser lançada nos cinemas. Quando fiquei sabendo de Se Eu Ficar, imaginei que não seria diferente, o livro tem qualidades muito semelhantes àquele, inclusive um aguardado filme homônimo. Porém, ao invés de esperar pela leitura, aproveitei a parceria com a Novo Conceito e experienciei a realidade catastrófica de Gayle Forman guiado pela curiosidade - e que grata surpresa.
Hoje de manhã, saí com a minha família para um passeio de carro. E agora estou aqui, mais sozinha do que nunca.
Depois do acidente, Mia ainda consegue ouvir a música. Ela vê seu corpo ser retirado dos destroços do carro de seus pais – mas não sente nada. Tudo o que ela pode fazer é assistir ao esforço dos médicos e enfermeiras para salvar sua vida, enquanto seus amigos e parentes aguardam na sala de espera... E o seu amor luta para ficar perto dela. Pelas próximas 24 horas, Mia precisa compreender o que aconteceu antes e depois da tragédia. E no fundo, também sabe que precisa fazer a escolha mais difícil de todas.
Não estou certa de que este é o mundo ao qual pertenço. Não tenho certeza se quero acordar.
A escrita de Forman é o contraponto de leveza à temática da história. Fluida, funcionou extremamente bem com o uso sequencial dos flashbacks, com os quais podemos conhecer quem de fato é Mia e todos a sua volta. Apesar de narrar sentimentalismos inerentes ao trajeto do enredo, a autora não se perde e mesmo nesses momentos não há tédio. Ela deixa claro de modo rápido de onde quer partir - as promessas da sinopse se cumprem nas primeiras páginas - e em qual lugar deseja chegar com o que escreve, desenvolvendo exemplarmente os personagens sem perder a determinação semântica. O emocional se faz presente na medida certa, me impressionando no quanto esse livro foi bem escrito.
[...] na terceira série, me deparei com o violoncelo durante as aulas de música e ele me pareceu mais humano. Parecia que, ao tocá-lo, ele lhe contaria segredos, então não hesitei.
Dessa forma, os flashbacks são quase um personagem a ser destacado. Gayle os utilizou para basear absolutamente tudo que desejou contar sem divagar, descrever demais, tampouco esconder o verdadeiro motivo de seu uso frequente. É uma escrita sincera, que se desfruta com o vai-e-vem do passado e presente, constantemente discutindo o futuro. Creio que, à proposta de um young adult/sick-lit, a construção afetiva de, em questão de segundos, ser a última pessoa viva de sua família foi eficiente e abre portas a um interesse posterior do leitor por tragédias mais complexas.
Precisava estar em algum outro lugar onde as pessoas não estariam tristes, onde a preocupação fosse a vida, não a morte.
Mia é mais uma protagonista bem equilibrada entre os lados ficcional e humano necessários ao contexto proposto. Apesar de muitas de suas reações soarem situacionalmente coerentes, não me parece tanto alguém que o leitor possa (re)conhecer em sua rotina. Não senti conexão nesse sentido. E digo "soarem", porque vejo um julgamento de credibilidade à ela cabível apenas a alguém que sofreu nas mesmas condições. Afinal, não perdi toda minha família em acidente de carro de uma hora para outra e caí em coma, negociando com a vida - logo, como poderia analisar sua coesão detalhadamente? Em minhas limitadas habilidades como resenhista, sinto em não saber a resposta.
Tenho dezessete anos. As coisas não deveriam ter acontecido dessa forma. Não é isso que deveria ter acontecido com a minha vida.
Embora esse estado possa ser empregado em praticamente qualquer livro atual - eu não sobrevivi aos Jogos Vorazes, mas pude criticar Katniss -, há algo estranho na realidade palpável de Forman que me impede de tal: a possibilidade constante da perda de quem você ama. Ela desconstrói, pelo menos momentamente, qualquer ideia de segurança que o ledor sonhe em estar. Não posso julgar Mia inteiramente porque eu consegui me pensar em seu lugar. Assim, não encontro produtividade em detalhar suas outras características, coadjuvantes e relacionamento amoroso, visto que é a desgraça que a move e ao livro como um todo.
Então, me inscrevi, juntei cartas de recomendação e enviei uma gravação. Não contei nada disso para Adam. Disse a mim mesma que não havia o menor motivo para alardes, já que a chance de conseguir uma audição era minúscula. Mas, mesmo assim, reconheci que aquilo era uma mentira. Uma pequena parte de mim sentia que o simples fato de me inscrever fosse um tipo de traição. Juilliard era em Nova York. E Adam estava aqui.
Não obstante, alguns problemas de revisão são perceptíveis, tanto em estruturas frasais específicas, quanto uma falta de padrão na tradução de termos, como nomes de livros - uns adaptados, outros não. Espero que a pressa em lançar e promover obras no embalo de suas aparições nas telonas não implique usualmente em uma correção não-tão compromissada com a excelência. A diagramação da Novo Conceito raramente falha na qualidade, porém não vou entrar no dilema das capas. Há bastante respiração entre o texto e o fim das páginas e a tipografia auxilia a vontade de continuar o texto. 
— Só acho que os funerais são como a própria morte. Você pode ter os seus desejos e planos, mas, no final das contas, nada está sob o seu controle.
— Nada disso [...] Não se você compartilhar os seus desejos com as pessoas certas.
Através de uma leitura fluente, uma protagonista ramificada de um jeito crível e uma prosa que pede interrupções pelas tristezas sobrepostas, Se Eu Ficar se consagrou funcional, bem escrito e deliciosamente capaz de ser lido. Se antes eu me preocupava com a necessidade duvidosa de uma continuação, agora penso que é um pensamento ainda mais válido. Gosto especialmente de como terminou e não sei dizer se lerei as obras seguintes. Se Mia pode escolher entre ir e ficar, acredito que nós também tenhamos alternativas nesse aspecto. E se você optou por ficar até aqui: leia.
Quero dizer [...] que, às vezes, não temos escolha.
Título: Se Eu Ficar.
Autor: Gayle Forman.
Editora: Novo Conceito.
Número de Páginas: 224.
Tradução: Amanda Moura.

sábado, 26 de julho de 2014

Bookcast #3


Terceira edição do Bookcast! Dessa vez falamos de J.K. Rowling voltando a escrever sobre Harry Potter, o filme de "Quem é você, Alasca?", os dois teasers de "A Esperança - Parte 1" e muito mais. Não sabe o que é? Clique aqui e aqui para assistir os anteriores!

Envie sugestões de notícias e temas: bookcastfeliz@gmail.com

Links mencionados:

- Artigo da Rita Skeeter traduzido: 
http://bit.ly/traducaoartigoharrypotter 

- Links dos teasers de A Esperança - Parte 1 
Teaser 1   https://www.youtube.com/watch?v=66VBs9HMp6E
Teaser 2  https://www.youtube.com/watch?v=vy0Km7SyBQQ

- Informações sobre a Bienal de São Paulo: 
http://www.bienaldolivrosp.com.br/ 

- Informações sobre a FLIP: 
http://www.flip.org.br/ingressos2014.php

E por favor, deixe seu feedback! Também se inscreva no canal, dê um like no vídeo e obrigado por assistir. Até o próximo - e que ele seja direto do Parque Anhembi!

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Carne, osso e palavras: há como separar a vida e a obra?

Podemos separar a cultura produzida por alguém das ações que executa em sua vida particular?
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Fonte: Camilando
Essa discussão muitíssimo interessante foi reerguida pelo escritor Damien Walter em seu blog no site do The Guardian. Acabei por me encontrar entre os debates, pois há alguns dias adquiri os livros d'As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley e tamanha foi minha surpresa ao saber de seu envolvimento perturbador nesse contexto. 

Em 2014, a escritora norte-americana já falecida foi acusada de abuso sexual por sua própria filha, Moira Greyland, que afirma ter sido molestada dos 3 aos 12 anos. Greyland acrescentou dizendo que foi uma das responsáveis por acusar seu pai, Walter H. Breen, também por abuso sexual de crianças.

Marion Zimmer Bradley
"A primeira vez que ela abusou de mim, eu tinha três anos. A última vez, doze, e eu conseguia fugir. Eu pus Walter na cadeia por abusar de um menino. Tentei intervir quando tinha 13 anos contando pra minha mãe e Lisa, e elas apenas o fizeram se mudar para seu próprio apartamento. Eu vivia parcialmente em sofás por causa da saída de medicamentos controlados, orgias e o constante fluxo de pessoas entrando e saindo do nosso "lar". Nada disso deveria ser novidade. Walter era um estuprador em série com muitas, muitas, muitas vítimas (eu dei o nome de vinte e duas aos policiais), mas Marion era de longe bem pior. Ela era cruel e violenta, assim como bastante fora de si sexualmente. Não sou sua única vítima, nem todas as suas vítimas foram meninas."
- Greyland por e-mail à escritora Deirdre Saoirse (link).

Todos sabem - ou deveriam saber - que o(a) escritor(a) que lemos nas páginas não é aquele(a) que conhecemos em carne e osso. Tanto que, diversas vezes, conhecer nossos heróis culturais é uma tremenda decepção. Uma cantora em ascensão no palco pode ser a depravada gritando obscenidades no bar. O poeta que expressa beleza nos versos talvez seja um bêbado egoísta. Logo, nós frequentemente separamos o artista do ser humano, o ícone do real. Porém, quando os atos de nossos rockstars literários ultrapassam a linha do mau comportamento, entrando na indignação moral e ilegalidade, concluir essa quebra se torna muito mais complicado - quando não impossível.

O caso relembrou acusações póstumas a outros autores, tais quais as que seguiram Lewis Carroll, autor de Alice no País das Maravilhas, desde que seu relacionamento com Alice Liddell - criança que inspirou suas obras - ficou sob suspeita após a publicação de uma biografia. J.M. Barrie, inventor de Peter Pan, é alvo de questionamentos há décadas acerca de suas reais intenções ao se aproximar da família Llewelyn Davies, que inspirou a criação de sua magnum opus. Bradley, aliás, possuiu vital importância à comunidade de ficção científica americana, estando por três meses dentre os bestsellers do New York Times e se consagrando uma das escritoras mais lidas no mundo todo.

E não é somente no meio literário que ficamos nesse tipo de situação. O Vaticano excomungou mais de 840 padres por alegação de abuso infantil em dez anos. Chris Brown perdeu fãs e ganhou a antipatia de inúmeros após o escândalo da violência doméstica contra Rihanna. Muitos observam que apoiá-los/lê-los afora suas posições ou atos envia uma mensagem implícita de que suas práticas são toleráveis. Ao mesmo tempo, há os que argumentam que o valor do trabalho pode ser distanciado de seu criador, logo somos capazes de reprovar o escritor sem condenar o escrito.

Eu ainda lerei As Brumas de Avalon, feito outros ledores que o farão depois de mim. Brown continuará com sua base de fãs e ouvintes cantarolando suas músicas. Católicos permanecerão indo às missas. O debate vai prosseguir e a dúvida de qual argumento abraçar, também.

"The rain it raineth every day" - Leonard C. Taylor
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Esse artigo é uma adaptação e tradução livre do texto de Damien Walter para o website do jornal The Guardian (link). Seu teor no presente blog é puramente reflexivo e não reproduz julgamentos de valor.