sábado, 4 de maio de 2013

[Resenha] Lissa Price - Starters

Não há escolhas esperançosas quando seu corpo é alugado para matar.
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Não há dúvidas: mantive sim um certo preconceito com "Starters". Primeiramente pela capa, achava-a exagerada demais, talvez ressaltando a suposta qualidade ruim do enredo. Tampouco a quote de marketing na capa - que não está na original -, incitando os fãs de Jogos Vorazes a lerem o mesmo despertou algo para que eu viesse a experimentar a escrita de Lissa Price. E essa procrastinação indevida só foi eficaz para provar o quanto estava errado. É uma obra prima pela qual me afeiçoei tanto quanto o primeiro livro da trilogia de Suzanne Collins - irônico, não? - e isso deve significar alguma coisa. E nada irá obstruir esse buraco de arrependimento de não tê-lo vivenciado antes, apenas mais uma grande estupidez literária de minha parte. Espero que não cometam o mesmo erro após ler esta resenha, caros amigos.
Minha inquilina estava em algum ponto do prédio. Estava sentada em uma cadeira como a minha. Em pouco tempo, ela estaria controlando meu corpo como se fosse eu.
Callie perdeu os pais quando a Guerra dos Esporos varreu todas as pessoas entre 20 e 60 anos. Ela e seu irmão mais novo, Tyler, estão se virando, vivendo como desabrigados com seu amigo Michael e lutando contra rebeldes que os matariam por uma bolacha. A única esperança de Callie é a Prime Destinations, um lugar perturbado em Beverly Hills que abriga uma misteriosa figura conhecida como Velho. Ele contrata adolescentes para alugar seus corpos aos Enders - idosos que desejam ser jovens novamente. Callie, desesperada pelo dinheiro que os ajudará a sobreviver, concorda em ser uma doadora. Mas o que parecia ser a solução é apenas o começo de grandes descobertas... E Callie terá que lutar para tentar sobreviver.
Minhas chances de fugir eram tão pequenas que provavelmente não existia uma fração que pudesse descrevê-las.
Lissa Price
A escrita de Lissa é deliciosa. Ao lado de Callie, vivenciamos suas reclusões, seus vãos emocionais e principalmente os desejos sinceros de uma jovem em sua situação. É uma narração que transmite uma realidade precisa, não como uma história há muito ocorrida ou mesmo um material textual de alguma utopia futurística - bom, talvez um pouco. Tratamos de um enredo presente, que não abandona o leitor e se perde em si mesmo, através do desenrolar capcioso das tramas, da resolução sem demora dos segredos e principalmente da tensão a todo momento, levando-nos a exigir mais e mais da história. A ambientação bem formada em torno do clima em que tudo se passa constrói a sublimidade da obra, assim como a independência do leitor de cobrar além do escrito, até sugarmos o último relance do entretenimento nato que preenche "Starters" à cada página.

Ele começou a gritar enquanto amarraram uma correia ao redor de seus pulsos e do peito, implorando-lhes que o deixassem ir embora. Os inspetores ignoraram os apelos do garoto, inclinando-o para a frente e segurando a correia sobre os ombros para arrastá-lo enquanto se afastavam do lugar. Os calcanhares do garoto arranhavam o chão, e cada irregularidade no pavimento era pontuada por um grito.
Era como se houvessem capturado um animal.
A protagonista de Callie Woodland - ou Winterhill, se você já leu o livro - não remete a defeitos, pela naturalidade com que lida com os problemas que surgem à medida que sua vida deteriorada é tragada pelos objetivos moralmente discutíveis que a cercam. Ela teme pela própria vida como qualquer um temeria em seu lugar e não se arrisca apenas a fim de servir como a boa heroína do texto. Acompanhamos uma Callie que expande sua mente ao decorrer da jornada, não subjulgando a inteligência do ledor com atos pouco críveis ou dramas românticos por demais idealizados. Ela, entretanto, não se deixa intimidar pelos desafios e surpreende pela sua força e determinação quando o assunto lhe diz respeito e desperta os mais variados sentimentos nos que leem seus relatos. Não consegui não apreciar uma personagem tão bem equilibrada entre a ficcionalidade necessária de um livro como tal e a autenticidade de não cair em insipidez.
Quando saí do prédio, o ar fresco do outono atingiu meu rosto. Inspirei aquele ar conforme andava por entre a multidão de Enders que enchia a calçada. Acho que fui a única pessoa que recusou a oferta [...], a única que não caiu naquela conversa de vendedor. Mas eu sabia que não devia confiar nos Enders.
A outra variedade de personagens não deixa a desejar e não há desperdício em meio ao que está acontecendo, porém é evidente que não há espaço para que se crie algo além do foco em que foram criados, pois esse é o show de Callie, no final das contaas. Vemos que há todo um cuidado para formar as respectivas personalidades pensando em como elas a afetariam; como Tyler com seu jeito frágil e acriançado que sucinta em si a vontade de protegê-lo e salvá-lo e Blake, o possível amor que surge  em meio ao complicado turbilhão de mudanças em sua - talvez não tão sua - vida, fazendo-a descobrir mais de si mesma, mesmo quando não se permitia perder o alvo. São ótimas descrições, um estilo conciso que não decai de ritmo e faz a leitura passar mais depressa do que gostaríamos.
Ele se afastou com um sorriso infantil no rosto, como uma criança de 5 anos em um parque de diversões que acabou de ganhar um peixe-robô dourado.
A diagramação da Novo Conceito, nossa parceira que cedeu um exemplar, é um tanto quanto curiosa e a capa choca pelo seu padrão sem igual, com alto-relevo nas reentranças dos chips e oo brilho prateado que não esmorece. O já familiar excelente trabalho de tipografia da editora, com duplo espaçamento e letras fortes é simples e satisfaz. Mesmo sem contar o valor conteudista, é um lindo volume para se ter na estante. Mas não se esqueça de lê-lo, é claro.
Será que Cinderela chegara a cogitar a possibilidade de confessar a verdade para o príncipe na noite em que se divertira com o belo vestido no baile? Será que chegara a pensar em dizer que, ah, por falar nisso, Príncipe, a carruagem não é minha, sou apenas uma criada suja e descalça e essa aparência não vai durar muito tempo? Não. Ela tinha aproveitado cada momento. E fora embora discretamente depois da meia-noite.
"Enders", a continuação
de "Starters"


Espero que não leve muito tempo para podermos conferir sua continuação, "Enders", porque falamos de um enredo rápido e simultaneamente coeso, que não retrocede e guarda surpresas, o que é muito importante notar quando todas as cartas do enredo parecer terem sido colocadas sobre a mesa. Há um claro sentimento distópico por trás do poder que Price possui ao levar a narrativa à conclusão, envolvendo o leitor como escritores de grandes best-sellers atuais são notórios por fazer.  Logo, "Starters" é um livro para multidões e para aqueles que ainda não se apaixonaram pelo modo de escrever de Price, mesmo sem ter conhecimento disso, mal podem esperar para ter essa queridinha em seu hall da fama literário. No meu ela já está, não há dúvidas.
- Temos muito trabalho a fazer. - Doris colocou a mão em minhas costas, guiando-me em direção a uma porta dupla. - Você não vai nem conseguir se reconhecer quando terminarmos.
- É disso que eu tenho medo.
Título: Starters.
Autores: Lissa Price.
Editora: Novo Conceito (cortesia).
Número de Páginas: 368.
Tradução: Ivar Panazzolo Júnior.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

[Resenha] James Patterson e Chris Tebbetts - Escola: Os Piores Anos da Minha Vida

Operação R.A.F.A. = Regras Atrapalham a Felicidade Alheia. __________________________________________________________________________________________                                                                                                                                                                                           Sem spoilers
Enquanto isso, eu gosto das coisas como elas são. Talvez isso faça com que seja esquisito. Talvez faça até parte daquilo que faz de mim um “artista”, como minha mãe disse, mas a verdade é que está mais ou menos funcionando para mim assim...
http://3.bp.blogspot.com/-UAf4KElZ6uI/UO9x4Qz_yEI/AAAAAAAABww/Teo3ud2gdfA/s1600/Escola+-+Os+Piores+Anos+da+Minha+Vida+%2528James+Patterson%2529.jpgNão estou em um dos melhores momentos da minha vida, isso é um fato. Um dos vários motivos dessa realidade foi o término do Ensino Médio, que me privou do tão comum e acolhedor meio escolar. Um vazio formado, que tentei preencher levemente da maneira mais eficaz que conheço: lendo. Lendo e me emocionando com cada lembrança que “Escola: Os Piores Anos da Minha Vida” trouxe-me à memória. Não hesitei em pedi-lo à Editora Arqueiro de parceria, assim como não mantive quaisquer expectativas; se seria automaticamente bom por ser do James, se seria muito infantil ou clichê. Simplesmente pedi, li e aproveitei. E nossa; como não me arrependi e espero que todos vocês possam lê-lo ao menos em uma fase de suas vidas e torná-lo um bom e velho amigo para se manter na estante.


É o primeiro dia de aula em sua nova escola, mas Rafa Khatchadorian já sabe que será o pior ano de sua vida. Como se não bastassem seus problemas em casa, agora ele terá que descobrir como sobreviver ao sexto ano. Por sorte, Rafa bolou o melhor plano de todos os tempos: ele se propôs a quebrar todas as regras do colégio, valendo pontos. Porém, professores, pais e valentões não curtiram essa ideia mirabolante. Será que o plano vai passar de mágico a trágico?
Se isso faz com que eu seja esquisito, ou sei lá o quê, o jeito é me conformar. Espero que você também não se importe.
Rafa é um protagonista que salta aos olhos. De sua personalidade à sua caracterização, vemos que é um menino comum sem destaques gerais e aprecio muito essa realidade que a ilustradora tratou de ressaltar, tornando-o mais normal possível aos olhos do ledor. Ele sabe como manusear a narrativa ao seu favor, não deixando que pormenores ofusquem os objetivos da trama, sempre renovando o ânimo do leitor de alguma forma. Logo tudo está em uma constante euforia contagiante e nunca abandonamos o ritmo ditado. É um camarada para se levar e lembrar cada vez que vir alguma criança quebrando as regras na escola. Poderia qualificá-lo de tantas outras maneiras, contudo não suplantaria o quão bom foi tê-lo ao meu lado durante essa leitura.
[...] Quando eu vi onde o dedo dele tinha ido parar, tive um pequeno ataque cardíaco.
- Eu não posso fazer isso! [...] E se alguém se machucar?
- Como é que isto aqui vai machucar alguém? [...] A não ser, talvez, você mesmo...
A estrutura da história é um caso à parte de qualquer outra narrativa. Os co-autores designaram não um texto para cada capítulo, e sim uma função. É impressionante a facilidade de entendimento que uma página com apenas um desenho inteligível consegue agregar, o que não se deve apenas ao inteligentíssimo design aplicado, porém também à elaboração de um enredo simples, conciso, completo e do qual você não sabe o que esperar. São surpresas emocionais anestesiadas por fechadas cômicas e ambientadas por lições subliminares, com tudo e mais um pouco que um livro para crianças precisa possuir.
As pessoas sempre falam sobre como crescer é maravilhoso. Mas eu só via cada vez mais regras e mais adultos me dizendo o que eu podia e não podia fazer, em nome do que é “para o meu próprio bem”. Sei, bom... Tenho que comer brócolis “para o meu próprio bem”, mas mesmo assim fico com vontade de vomitar.
Foi uma surpresa e tanto. James e Chris não se bastam em escrever mais uma história sobre um menino desajustado que sofre bullying, tem problemas familiares e quem sabe uma mente um tanto imaginativa. Eles criaram um conto que, embora ambientado em uma realidade escolar totalmente diferente da brasileira, pode fazer com que leitores do mundo inteiro se reconheçam de certa forma nos dilemas diários de Rafa; seja em sua necessidade desesperada de ser notado, em sua solidão e dificuldade de fazer amigos ou em criar refúgios arriscados para ver livre dos próprios problemas.
E aí vai mais um segredo, para você ter certeza que somos amigos: Jeanne Galletta não será minha namorada no fim desta história. Não estou dizendo isso por não ser confiante ou algo assim. Acontece que o livro é meu e eu já sei como ele termina. Então, se você é do tipo que gosta de coisas românticas e está aí esperando que ela comece a gostar de mim como num passe de mágica, já vou logo avisando: pode esperar sentado.
A diagramação é especial em chamar a atenção, com o tom de cores e as ilustrações corretas para seu público-alvo – e as da capa são somente algumas das inúmeras que complementam a leitura de um modo sem igual. O tamanho pequeno facilita o apoio das mãos para os mais novos, além de encaixar perfeitamente em qualquer canto de sua mochila/bolsa/estojo-ninja, no caso do Rafa em época de Halloween. Não há uma quantidade extensa de textos que se seguem e os capítulos curtos incitam uma conclusão rápida, onde finalizei-o em três dias durante as idas e vindas do trabalho. Uma ótima oportunidade de conciliar o caos da Avenida Brasil com o caos que Rafa Khatchadorian causa em sua escola. E não preciso nem dizer o quão caótico Tebbetts e Patterson deixaram meu nostálgico coração.
- Olhe [...], você nunca vai ser uma dessas pessoas – e apontou para os atletas, as animadoras de torcida e os candidatos ao conselho estudantil [...] – Mas isto [...], isto é algo que você é capaz de fazer.
- Não sei, não.
(Essa foi minha tentativa ridícula de escapar.)
- Ou você pode continuar do mesmo jeito, e todos os dias serão iguais a este [...] Talvez não seja tão ruim assim. Um ano letivo tem só uns 200 dias.
Isso bastou.
Gostaria de fazer jus à obra, porém é mais um daqueles felizardos volumes da pilha “bom demais pra descrever e tão difícil quanto de resenhar”. Acredito que quando falo isso, vocês já entendem que o livro é um Must Read e que devem adquiri-lo o quanto antes a fim de apreciá-lo. Confio em seu bom gosto e, principalmente, na eterna criança que deve existir dentro de vocês. E a minha criança interior mal pode esperar pela continuação!
Agora você sabe todas essas coisas sobre mim e eu ainda não sei nada sobre você. Nem sei se ainda está aí.
Está?
Título: Escola: Os Piores Anos da Minha Vida.
Autores: James Patterson e Chris Tebbetts.
Editora: Arqueiro.
Número de Páginas: 288.
Tradução: Ana Ban.
Ilustradora: Laura Park.

terça-feira, 9 de abril de 2013

[Resenha] J.R.R. Tolkien - O Hobbit

Quem tem medo do dragão mau? __________________________________________________________________________________________
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Caíque está lendo:
Era uma vez um menino que tinha uma grande amiga. Esta, um belo dia, indicou-lhe a trilogia de filmes de “O Senhor dos Anéis”. Desde então, o menino almejava ler algo do autor que dera origem àquela realidade tão fantástica e única. Em outra agradável manhã, o menino conseguiu realizar o seu desejo e resolveu tentar escrever tudo aquilo que a obra lhe passou. Mas o menino nunca descobriu se bem o executou, tão somente o fez sem hesitar. 

- [...] Agora, vá depressa e volte logo, se tudo estiver bem. Caso contrário, volte se puder! Se não puder, pie duas vezes como uma coruja, e uma vez como um mocho, e faremos o que estiver ao nosso alcance.


Bilbo Bolseiro é um hobbit que leva uma vida confortável e sem ambições, raramente aventurando-se para além de sua despensa ou sua adega. Mas seu contentamento é perturbado quando Gandalf, o mago, e uma companhia de anões batem à sua porta e levam-no para uma expedição. Eles têm um plano para recuperar seu tesouro roubado por Smaug, o Magnífico, um grande e perigoso dragão. Bilbo reluta muito em participar da aventura, mas acaba surpreendendo até a si mesmo com sua esperteza e sua habilidade como ladrão!
Para além das montanhas, nebulosas e frias
Adentrando cavernas, calabouços perdidos
Devemos partir antes de o sor surgir,
Buscando tesouros há muito esquecidos.
Quando as coisas são para acontecer, elas simplesmente ocorrem sem impedimentos. Tolkien o escreveu para seus filhos e acabou se tornando um dos livros mais conhecidos, lidos e influentes da face da Terra. Comparando o enredo e as temáticas abordadas atualmente, a obra talvez não se encaixasse no gênero infantil se lançado hoje em dia, pois sim, enquanto “O Senhor dos Anéis” engloba aspectos mais obscuros, sombrios e emocionalmente pantanosos, “O Hobbit” é apenas um livro para crianças. Bom, talvez “apenas” não seja o termo ideal para referenciá-lo.
É estranho, mas as coisas boas e os dias agradáveis são narrados depressa, e não há muito que ouvir sobre eles, enquanto as coisas desconfortáveis, palpitantes e até mesmo horríveis podem dar uma boa história e levar um bom tempo para contar.
Tolkien possui uma narrativa muitíssimo peculiar. Ele não segue um padrão de escrita e tampouco tenta ser profissional ou eloquente com isso. O curioso é que deu certo. Ele interage com o leitor, faz comentários impróprios sobre Bilbo nas situações mais impróprias e sabe como tirar um humor saudável e aplicar lições subliminares como ninguém. Provavelmente, tal leveza pueril não se encontre em seus outros best-sellers, pois o público-alvo é outro – caso possamos chamar de “público alvo”, considerando o objetivo inicial de leitura. É prazeroso de se ler e em momento algum maçante, como temia graças à fama das descrições mais que detalhadas do escritor.
- Restam-lhe apenas dez minutos. Você vai ter de correr [...]
- Mas... [...]
- Não há tempo para isso [...]
- Mas... [...]
- Também não há tempo para isso! [...]
Ao delimitar trejeitos de uma forma tão automática, os personagens se tornam a grande marca do autor e prontamente nos familiarizamos com as maneiras de falar, os jeitos de pensar e, principalmente, os tipos de criaturas da Terra Média. Orcs gratuitamente cruéis e anões indubitavelmente divertidos, hobbits e seu meio sereno de vida e magos que somem, aparecem e agem sem explicações suficientes. Sem contar o valor cultural estabelecido, porquanto estamos falando de gerações e gerações que têm o conceito de elfos, anões, magos, feiticeiros, orcs, goblins e tantas outras ficções exatamente como Tolkien os criou, imaginou e descreveu. Tal espécie de poder, essa influência massiva e quase desproposital perpetuada por décadas conclui sua importância para a literatura humana.
Tentou adivinhar da melhor maneira possível e arrastou-se por um bom trecho, até que de repente sua mão tocou o que parecia ser um minúsculo anel de metal frio no chão do túnel. Era um ponto decisivo em sua carreira, mas ele não sabia.
Pontuando fatores negativos, não posso mencionar quaisquer faltas cometidas, já que consideramos se tratar de um texto para crianças. E mesmo se não levássemos em conta, não notaríamos nada de errado. O livro executa com precisão suas funções e apenas o final me incomodou um pouco, uma vez que não esperava o desenrolar da trama do modo que se sucedeu, acredito que tenha fugido um tanto da proposta original, entretanto não alterou em nada a apreciação da leitura. Tive a chance de adquirir meu exemplar em uma promoção do Submarino por R$30, a edição de comemoração da Martins Fontes de 75 anos de publicação da obra, com direito à capa dura, inúmeras ilustrações do autor, ortografia atualizada e detalhes tipográficos e de design em geral que fazem o preço valer a pena. Com certo dó de levá-lo para ler no ônibus, li a maior parte através do tablet, contudo sempre que conseguia uma hora em casa, aproveitava-o ao máximo.
Ele atacou os pelotões dos orcs de Monte Gram, na Batalha dos Campos Verdes, e arrancou a cabeça de seu rei Golfimbul com um taco de madeira. A cabeça voou pelos ares cerca de cem jardas e caiu numa toca de coelho, e dessa maneira a batalha foi vencida e ao mesmo tempo foi inventado o jogo de golfe.
Não sei quantos dragões egocêntricos e narcisistas separam-nos do tesouro de leitura que é “O Hobbit”, mas é o momento de angariar uma companhia de anões e empenhar o caminho da batalha. E não se intimide com as noções que possui ou os preconceitos literários que abrangem seus cerebelos, apenas lembre-se de que mesmo este leitor desconfiado se rendeu à história, gostou e também ainda não se comprometeu em ler a trilogia do Um Anel. Deixem de procrastinar a decisão antes que um mago bata à sua porta para chamá-lo a uma aventura. E se ele se atrasar, não se engane, ele não está atrasado. Magos chegam exatamente quando devem chegar e é melhor ter bolos, chá e charadas para recepcioná-lo.
Num buraco no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de restos de minhocas e com cheiro de lodo, tampouco uma toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar ou o que comer: era a toca de um hobbit, e isso quer dizer conforto.
Título: O Hobbit.
Autor: J.R.R. Tolkien.
Editora: Martins Fontes.
Número de Páginas: 310.
Tradução: Lenita Maria Rímoli.

terça-feira, 5 de março de 2013

[Resenha] Pittacus Lore - Eu Sou O Número Quatro

"Ready for abduction". __________________________________________________________________________________________
                                                                                                            ("Pronto para abdução.") - Sem spoilers

Eu Sou o Número Quatro
Apesar de ter me tornado um consumidor de livros muitíssimo maior do que eu era, não sou uma pessoa que compra volumes e volumes deliberadamente por qualquer motivo e que não sabe ao menos quando irá lê-los. Não tenho nada contra esse tipo de leitor, só não me encaixo nesse meio e tal afirmação é mais uma explicação do que estou prestes a lhes contar. “Eu Sou O Número Quatro” me chama a atenção desde que assisti ao filme homônimo – já assistiu ou pretende ver? Leia nossa crítica clicando aqui – e que descobri sua proposta ufológica. Nunca li nada do tipo e realmente gostaria de experimentar, por isso na Bienal do Livro do Rio de 2011 adquiri um exemplar e agora, dois anos depois e com o anúncio do quarto volume da série por aqui, resolvi me aventurar sem carteira de habilitação pelas estradas de Paradise, Ohio. Ponham os cintos, por favor.
Até a cicatriz aparecer, eu quase me convencera de que minhas lembranças não eram realidade, de que o que Henri me dissera estava errado. Queria ser uma criança normal levando uma vida normal, mas então eu soube, sem margem pra dúvidas ou discussão, que eu não era.
Um planeta relativamente próximo à Terra chamado Lorien foi atacado pelos mogadorianos, uma raça devastadora que desejava consumir todos os seus recursos como fizera com seu próprio mundo. Na esperança de evitar a extinção da própria espécie, nove lorienos foram enviados à Terra para escapar da destruição que viera de Mogadore. Através de um encantamento, suas vidas foram seladas e eles só poderiam ser mortos na ordem correta de seus números. Sob os cuidados de seus guardiões, cada um seguiu seu próprio caminho, tão longe quanto possível da caçada que os mogadorianos empreenderam para achá-los. Mas o Número Um foi morto na Malásia. O Número Dois foi assassinado na Inglaterra. O Número Três acabou de ser perseguido e capturado no Quênia. E John Smith é o Número Quatro.
"Aquelas coisas que são mais evidentes são as que menos enxergamos." 
Aliens são um assunto um tanto peculiar, permissivo e livre demais para ser abordado, logo há a curiosidade de entender como isso funcionaria em uma narrativa. Embora o enredo seja coeso, a escrita é um tanto superficial em certas partes, principalmente quando nos apresentavam à mitologia proposta. Não parece que houve alguma edição que “encorpasse” o texto ou mesmo o incrementasse aos moldes necessários para evoluir do comum para o profissional; eram momentos e mais momentos de composições demasiadamente simplistas. Por mais que tal estratégia aproxime os leitores mais jovens e alcance um público-alvo maior e mais receptivo, tampouco é motivo para abrir mão de melhorar algo tão essencial quanto à maneira como se conta uma história.
"São os pequenos deslizes que levam aos grandes erros. Você não pode errar."
O ritmo não se perde em momento algum e a empolgação é mantida, o que é louvável com uma trama tão quente e instável em mãos, pois lembrem-se de que estamos tratando de alienígenas, um tema que de tão ilimitado pode ser perigoso nas mãos de um autor inspirado. Pittacus – esse é apenas um pseudônimo para a dupla de autores reais, porém decidi manter o termo para a resenha – consegue arquitetar nuances de ação seguidos que não cansam ou soam pejorativos, graças à organização dos fatos que não estão ali pelo puro acaso cronológico de sua imaginação. As cenas caminham para uma única direção que, mesmo estando determinada, é tão nebulosa e desconhecida que permanecemos tentados a descobrir o que irá acontecer.
Nós realmente acreditamos em algum ponto que poderíamos ganhar?
 A gama bem dividida de personagens é presente desde o começo do livro, mas não há muita oportunidade para desenvolver qualquer um que não seja John, o narrador-personagem que detém o foco do texto. Não chega a ser bom ou ruim, entretanto é interessante não permanecer apenas com os próprios dilemas e creio que tal dinâmica alinhada à teia principal poderia funcionar se houvesse um ênfase maior a eles. John é um bom protagonista e cumpre sua função de ser o herói apaixonado do romance sem ser achacado com uma lista de adjetivos primorosos ou envolto com o papel da perfeição. Ele é até bem normal para ser o centro das atenções de um enredo como esse e foi um dos fatos que mais me empolgaram durante a experiência. Trata-se de algo bem inteligente; não se perder nas próprias complicações habituais dos protagonistas quando há tantas outras coisas a serem aprofundadas e trabalhadas ao longo da prosa. Bernie Kosar, o cachorro de John, arrancou-me vários sorrisos durante a leitura, fora definitivamente o meu personagem predileto. Mesmo que o não aproveitamento total do estilo de escrita torne os vilões levemente caricatos, não é nenhum ponto fraco do carro-chefe d’os Legados de Lorien.
Henry sempre disse: O preço de uma lembrança é a lembrança da dor que ela traz.
As descrições são delimitadas a nos colocarem onde o Número Quatro se encontra e moldadas para não entediarem o leitor. Mesmo que Lore aprofunde cada vez mais sua mitologia, aquela impressão de “isso poderia ser bem melhor escrito” atrapalhou consideravelmente minha visão da obra, pois não a vi tão seriamente como gostaria, pelo menos até o final. Este sim é o estopim da ação, agonia e empolgação, conjecturando-se como o trecho em que me conectei de verdade à proposta; quando a habilidade de escrita percorreu os quatro cantos da eficiência e ofereceram um estilo que desejei ter lido durante todo o livro. Não me entendam errado, não se trata de uma leitura ruim, muitíssimo pelo contrário, é uma história ótima e mal posso aguardar uma brecha na pilha de leitura para ler sua continuação. Apenas sou obrigado a olhar qualquer material de leitura sob um olhar crítico, analítico. Não há como evitar depois de se tornar um blogueiro literário, um fardo que vamos carregar por inúmeros “isso vai ficar ótimo na resenha”.
Eles estão nos caçando, e não vão parar enquanto não tiverem matado todos nós.
Eu Sou O Número Quatro é simplesmente uma excelente obra que poderia ter sido melhor editada para ascender ainda mais no quesito "escrita". Um pouco mais de desenvolvimento dos coadjuvantes e voilá. Para não me atrasar em demasia, planejo ler sua continuação, O Poder dos Seis, ainda este ano e já reparei em comentários mais que positivos acerca do mesmo. Só espero que você não esteja aguardando ser abduzido(a) para ler a história dos nove lorienos e compartilhar sua opinião comigo escrevendo símbolos estranhos em plantações.
“Eu não sou quem você pensa que eu sou”, eu disse.
“Quem é você?”
“Eu sou o Número Quatro.”
Título: Eu Sou O Número Quatro (Os Legados de Lorien #1).
Autora: Pittacus Lore.
Editora: Intrínseca.
Número de Páginas: 352.
Tradução: Débora Isidoro.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Desabafo

Imagem pinada
"The Sea Captain's Wife", de Charles Wysocki.
Sempre gostei de ser blogueiro. Não consigo ao menos parar e contar quantos blogs dos mais variados assuntos já possuí e nunca - nunca - me senti tão confortável e responsável por um deles como pelo Livros, letras e metas. Desde que o Robledo deixou o projeto, eu só pensava por quanto tempo poderia sustentar tudo isso sozinho sem perder a qualidade e credibilidade do nosso conteúdo. Nunca parei de tratar dos assuntos do blog como "nosso" ou "nós", creio que tal fato aliviava a tensão de estar só nessa tarefa-hobby que já perdura mais de dois anos. O balanço feito é de novas amizades que levarei para o resto da vida, acesso rápido e fácil a livros que amei, desejei e odiei, compartilhar minha opinião com pessoas de todo o país - quiçá do mundo - inteiro e saber suas ideias também, divertir-me em eventos e encontros, angariar brindes incríveis e manter essa sensação prazerosa de estar em meio daquilo que realmente te faz bem. O mundo literário também é o meu mundo agora.

Há muito tempo o blog não me traz mais prazer e eu, como dizem as más línguas, venho "empurrando com a barriga", afinal, procrastinar é a nova onda. Não há o feedback necessário, não há motivação, não há leitores o suficiente, logo não há diversão em pensar em posts, escrever, editar resenhas, gravar vídeos ou bolar quaisquer conteúdos novos que venho lançando ao longo dos meses para mim mesmo. Venho me decidindo sobre terminar as atividades ou não e quais seriam as possíveis consequências. Imagino que, como o cotidiano do blog, pouquíssimas pessoas irão passar por aqui, ler isso e muito menos comentar, mas para aqueles que acredito que mereçam uma resposta; eu ainda não me decidi sobre o que fazer, ainda não sei se consigo abrir mão de receber livros cuja leitura almejo gratuitamente, de relatar o que achei de cada experiência literária e de afirmar com orgulho que "Eu sou blogueiro literário". 

Mesmo que ninguém leia esse texto, estou fazendo o que precisei fazer; desabafar e seguir em frente, pois depois de ler mais um livro - "Divergente", para ser mais exato -, passei muitíssimo tempo em frente à tela do computador e simplesmente não pude redigir uma só palavra para a resenha do mesmo, então mudei o rumo da prosa para essa postagem. A partir de agora, não prometo resenhar todos os livros que eu ler e vou tentar ao máximo não ficar neurótico com isso. Os posts serão mais raros infelizmente e acredito que a quantidade ínfima de comentários tem altas chances de se tornar nula, mas não há o que fazer sobre isso. Não farei promoções para atrair leitores que chegam, participam, ganham e nunca mais aparecem. Vou refletir, planejar e continuar "empurrando com a barriga" por um tempo, porém agora não é por um tempo indefinido. Lembro aos leitores assíduos do blog que, apesar de não serem muitos, são essenciais para nós e tão importantes quanto manter um blog inteiro no ar, que não estou desmerecendo vocês ou cobrando blogueiros de comentar aqui, até porque eu mesmo quase não comento em nenhum blog por falta de vontade e tempo, e acredito que os comentários realmente válidos acontecem na espontaneidade da ação. Talvez este seja sim o último ano do blog como já havia comentado com alguns blogueiros que conheço, porém isso não quer dizer que tudo irá acabar definitivamente. Para ser sincero, imploro para que não seja, mesmo sem saber se possuo escolhas. 

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OBS.: Aos que interessarem, - leitores mudos ou não - estou rascunhando a resenha de "Eu Sou o Número Quatro", pessoal. É, o blog não vai morrer ainda e graças a vocês, cujos comentários renovaram minhas forças. Muitíssimo obrigado pelo carinho!